UFMG pede desculpas, mas dados históricos exigem retificação baseada em evidências

https://www.medicina.ufmg.br/conheca-a-faculdade/
faculdade de medicina ufmg

A recente manifestação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), reconhecendo o uso de cadáveres provenientes do Hospital Colônia de Barbacena, reacende um debate necessário: o da precisão histórica frente à força das narrativas amplamente difundidas.

Embora parte da opinião pública ainda reproduza a cifra de mais de 60 mil mortes ao longo do século XX, estudos fundamentados em documentação primária e revisão historiográfica indicam a necessidade de retificação desses dados. Conforme apresentado na obra Exilados na Pátria, o total de óbitos registrados na instituição, entre 1903 e 1979, foi de cerca de 19 mil mortes, em um universo de mais de 90 mil internações.

No que se refere à circulação de cadáveres, pesquisa documental baseada em livros manuscritos do próprio hospital identificou 1.873 registros nominais de envio de corpos para instituições de ensino médico, no período de 21 de janeiro de 1970 a 6 de junho de 1975. Os dados evidenciam um sistema estruturado e concentrado: a UFMG figura como principal destino, com 553 registros (29,5%), considerando conjuntamente a Faculdade de Medicina e o Instituto de Ciências Biológicas.

Na sequência, destacam-se outras instituições receptoras: a Faculdade de Medicina de Valença (RJ), com 282 registros (15,1%); a Fundação Universitária Sul-Fluminense, com 181 (9,7%); e a Faculdade de Teresópolis, com 140 registros (7,5%). Juntas, essas quatro instituições concentram 1.156 envios, correspondendo a 61,7% do total analisado, o que revela elevada concentração em um núcleo institucional restrito.

Mais do que simples correções numéricas, esses dados representam uma retificação histórica necessária, diante da circulação de informações distorcidas que, embora impactantes, não contribuem para a compreensão rigorosa dos fatos. Reconhecer violações e condições precárias é fundamental — mas isso deve ser feito com base em evidências, e não na reprodução acrítica de cifras que obscurecem, em vez de esclarecer, a complexidade da história.

Fonte: UFMG pede desculpas por uso, no século XX, de cadáveres de Barbacena em suas atividades de ensino <https://www.medicina.ufmg.br/ufmg-pede-desculpas-por-uso-no-seculo-xx-de-cadaveres-de-barbacena-em-suas-atividades-de-ensino/>

Exilados na pátria: tratamento de “alienados” no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, 1903-1979 <https://loja.editoradialetica.com/humanidades/exilados-na-patria-tratamento-de-alienados-no-centro-hospitalar-psiquiatrico-de-barbacena-1903-1979?srsltid=AfmBOorvt-gaQPbyjeSmaMsG8SaDft-OKxSIOhSIrOY-uUGtgwZHRQrk>