Quatro dias de trabalho, quatro de folga: como a nova escala da ArcelorMittal muda a rotina de milhares de famílias em João Monlevade

Trabalhadores da ArcelorMittal Monlevade durante assembleia que aprovou a implantação da escala 4x4 em João Monlevade.
Trabalhadores da ArcelorMittal Monlevade aprovaram, em assembleia, o acordo que implantou a escala 4x4 na unidade de João Monlevade.

Novo regime de jornada começa nesta quarta-feira na usina; acordo foi aprovado pelos trabalhadores após meses de negociação e representa uma das maiores mudanças na organização do trabalho da empresa nos últimos anos

JOÃO MONLEVADE – A rotina de centenas de trabalhadores da ArcelorMittal Monlevade começa a mudar nesta quarta-feira (15). Entra em vigor a nova escala 4×4, modelo que prevê quatro dias consecutivos de trabalho seguidos por quatro dias de descanso e que foi aprovado em assembleia pelos empregados após meses de negociações entre a empresa e o Sindicato dos Metalúrgicos de João Monlevade (Sindmon-Metal).

Mais do que uma alteração na jornada, a mudança promete influenciar diretamente a vida de milhares de famílias, com reflexos no convívio familiar, na organização da rotina doméstica, no comércio, no transporte e até na dinâmica econômica de João Monlevade.

A implantação encerra um processo de negociação iniciado em janeiro deste ano, marcado por impasses, manifestações, estado de greve e cinco rodadas de negociações entre representantes da empresa e dos trabalhadores.

Como funciona a escala 4×4

O novo sistema estabelece ciclos de quatro dias consecutivos de trabalho seguidos por quatro dias de folga.

Na prática, os trabalhadores atuarão em jornadas de 12 horas, compostas por:

  • 10 horas e 45 minutos de trabalho efetivo;
  • 1 hora destinada à refeição;
  • 15 minutos de intervalo;
  • fornecimento de lanche durante a jornada.

Segundo o Sindmon-Metal, o novo modelo substitui o sistema de turno fixo implantado pela empresa em março deste ano.

Além da mudança na jornada, o acordo prevê o retorno do adicional de turno de 9,5% para os trabalhadores abrangidos pelo novo regime.

Por outro lado, a negociação não garantiu a manutenção da vantagem pessoal de 11,7%, benefício previsto em acordos anteriores para parte dos empregados. De acordo com o sindicato, a empresa manteve posição contrária à permanência desse complemento salarial durante toda a negociação.

Aprovação ocorreu após meses de negociações

A implantação da escala 4×4 foi aprovada em assembleia realizada no dia 24 de junho.

Participaram da votação 341 trabalhadores.

O resultado foi:

  • 300 votos favoráveis
  • 41 votos contrários

A aprovação encerrou um período de intensa mobilização da categoria.

Durante as negociações ocorreram assembleias, manifestações, estado de greve e reuniões entre representantes da empresa e do sindicato para discutir a organização da jornada de trabalho.

A aprovação encerrou um período de intensa mobilização da categoria. Durante as negociações ocorreram assembleias, manifestações, estado de greve e reuniões entre representantes da empresa e do sindicato para discutir a organização da jornada de trabalho.

João Monlevade possui uma longa história de organização operária, marcada por importantes mobilizações sindicais ao longo das últimas décadas, desde os movimentos dos metalúrgicos durante a ditadura militar até as negociações coletivas atuais. Saiba mais na reportagem: João Monlevade concentrou uma das mais duras repressões contra trabalhadores em Minas Gerais.

Mudança vai além da fábrica

Embora a alteração esteja restrita aos trabalhadores abrangidos pelo acordo coletivo, seus efeitos podem ser percebidos em diferentes setores da cidade.

Com quatro dias consecutivos de folga, muitas famílias passarão a reorganizar suas rotinas.

O novo modelo pode influenciar:

  • horários de lazer;
  • comércio;
  • restaurantes;
  • supermercados;
  • academias;
  • viagens curtas;
  • consumo de serviços;
  • convivência familiar.

Especialistas em organização do trabalho destacam que jornadas diferenciadas costumam alterar hábitos de consumo e utilização dos serviços urbanos, especialmente em municípios cuja economia depende fortemente de uma grande indústria.

Escala semelhante já foi considerada válida pelo TST

A adoção da escala 4×4 não é inédita na ArcelorMittal.

Em 2019, a Seção Especializada em Dissídios Coletivos do Tribunal Superior do Trabalho (TST) reconheceu a validade de um acordo coletivo firmado entre a ArcelorMittal e o Sindicato dos Metalúrgicos do Espírito Santo que previa modelo semelhante.

Naquele caso, o Ministério Público do Trabalho questionava a jornada por entender que ela poderia comprometer a saúde dos trabalhadores.

Entretanto, a maioria dos ministros concluiu que a Constituição permite a flexibilização da jornada mediante negociação coletiva, desde que haja compensações aos empregados.

Entre os argumentos considerados pelo Tribunal estavam:

  • existência de duas horas de intervalo durante a jornada;
  • média semanal inferior ao limite constitucional;
  • quatro dias consecutivos de descanso;
  • acordo aprovado pelos próprios trabalhadores.

O entendimento reforçou a autonomia da negociação coletiva entre empresa e sindicato.

Debate continua entre especialistas

Apesar da decisão do TST, a adoção de jornadas prolongadas continua dividindo especialistas.

Pesquisadores da área de saúde do trabalhador apontam que jornadas extensas podem aumentar o desgaste físico e mental quando não acompanhadas de períodos adequados de descanso.

Por outro lado, defensores da escala argumentam que períodos maiores de folga favorecem o convívio familiar, reduzem deslocamentos e proporcionam mais tempo para lazer, estudos e outras atividades pessoais.

Em João Monlevade, a negociação levou meses justamente porque buscava equilibrar esses diferentes interesses.

Câmara Municipal acompanhará início da nova jornada

Para marcar o início da implantação da escala, o presidente do Sindmon-Metal, Flávio Cordeiro de Paiva, utilizará a Tribuna Popular durante a reunião ordinária da Câmara Municipal nesta quarta-feira.

Segundo o sindicato, o pronunciamento servirá para agradecer o apoio recebido dos vereadores durante as negociações e apresentar à população os resultados do acordo firmado com a empresa.

O que muda para João Monlevade

A implantação da escala 4×4 representa uma das maiores mudanças recentes na organização do trabalho da principal indústria instalada no município.

Os impactos poderão ser percebidos ao longo dos próximos meses.

Além das mudanças na rotina dos trabalhadores, a nova jornada poderá produzir reflexos sobre:

  • comércio;
  • transporte;
  • prestação de serviços;
  • lazer;
  • economia local.

A reportagem do O Fato acompanhará os primeiros meses de funcionamento da nova escala para verificar seus efeitos práticos sobre os trabalhadores, suas famílias e a cidade.


Perguntas frequentes

O que é a escala 4×4?

É um modelo de jornada em que o trabalhador cumpre quatro dias consecutivos de trabalho seguidos por quatro dias consecutivos de descanso, conforme previsto no acordo coletivo firmado entre a ArcelorMittal Monlevade e o Sindmon-Metal.

Quando a nova escala começa?

A implantação está prevista para começar nesta quarta-feira, 15 de julho de 2026, conforme o cronograma estabelecido após a aprovação do acordo coletivo.

Quantos trabalhadores aprovaram a proposta?

Na assembleia realizada em 24 de junho, 300 dos 341 trabalhadores participantes votaram favoravelmente ao acordo, enquanto 41 foram contrários.

A remuneração dos trabalhadores muda?

O acordo prevê o retorno do adicional de turno de 9,5% para os empregados abrangidos pela nova jornada. Já a vantagem pessoal de 11,7% não foi mantida para parte dos trabalhadores, conforme informou o sindicato.

A escala 4×4 é permitida pela legislação?

Sim. O Tribunal Superior do Trabalho reconheceu a validade de um acordo coletivo semelhante firmado na ArcelorMittal do Espírito Santo, entendendo que a Constituição admite a flexibilização da jornada por meio de negociação coletiva, desde que respeitados os direitos dos trabalhadores e as compensações previstas no acordo.

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