João Monlevade concentrou uma das mais duras repressões contra trabalhadores durante a ditadura

Agencia Brasil - RAFAEL CARDOSO Publicado em 01/04/2024 - 23:34 Brasília
Agencia Brasil - RAFAEL CARDOSO Publicado em 01/04/2024 - 23:34 Brasília

Documentos da Comissão da Verdade em Minas Gerais registram investigações, prisões, demissões, torturas e perseguição sistemática a metalúrgicos ligados ao movimento sindical

JOÃO MONLEVADE – Documentos reunidos pela Comissão da Verdade em Minas Gerais (COVEMG) revelam um dos episódios mais concentrados de repressão contra trabalhadores durante a ditadura civil-militar brasileira: a perseguição sistemática aos metalúrgicos de João Monlevade após o golpe de 1º de abril de 1964.

Diferentemente da repressão mais dispersa registrada nos grandes centros urbanos, a operação conduzida no município atingiu diretamente o Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos e empregados da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, uma das maiores indústrias do país naquele período.

Os registros indicam que a repressão buscava enfraquecer a organização sindical, interromper as mobilizações por melhores condições de trabalho e desarticular qualquer resistência operária dentro da siderúrgica, que exercia papel central na economia e na vida social de João Monlevade.

Um padrão concentrado de perseguição

A análise dos processos reunidos pela COVEMG aponta um padrão de perseguição marcado pela seletividade e pela intensidade.

A Comissão documentou 67 trabalhadores como vítimas diretas da repressão em João Monlevade. Desse total, 62 foram submetidos a investigações formais em Inquéritos Policiais Militares (IPMs).

O número chama atenção principalmente pela concentração das ações em uma única cidade, em torno de uma mesma categoria profissional e de uma grande empresa.

Enquanto em capitais como Belo Horizonte e Rio de Janeiro a repressão atingia diferentes grupos políticos, organizações e movimentos, em João Monlevade ela se concentrou no núcleo da organização operária local.

Os documentos analisados pela Comissão indicam uma estratégia voltada à desarticulação do Sindicato dos Metalúrgicos e à intimidação dos trabalhadores da Belgo-Mineira.

Sindicato forte em uma cidade controlada pela empresa

Para compreender a dimensão da repressão, é necessário observar a estrutura social de João Monlevade naquele período.

O município apresentava características de uma company town, expressão utilizada para definir cidades cuja organização econômica e social está fortemente subordinada a uma única empresa.

A Belgo-Mineira não era apenas a principal empregadora. A companhia também exercia influência sobre moradias, serviços, comércio, infraestrutura e diferentes aspectos da vida cotidiana dos trabalhadores.

Nesse contexto, qualquer movimento sindical capaz de questionar as condições de trabalho ou o poder exercido pela empresa poderia ser interpretado como uma ameaça à ordem estabelecida.

O Sindicato dos Metalúrgicos, liderado em diferentes momentos por nomes como João Paulo Pires de Vasconcelos, havia conquistado benefícios e ampliado a capacidade de mobilização dos operários.

A organização sindical representava, portanto, um contraponto ao poder econômico e político exercido pela companhia na cidade.

Demissões, prisões e expulsões das moradias

A repressão combinou violência física, perseguição política e punição econômica.

De acordo com depoimentos reunidos pelos órgãos de memória, trabalhadores foram obrigados a assinar pedidos de demissão sob a vigilância de homens armados.

João Paulo Pires de Vasconcelos, ex-presidente do sindicato, relatou que os operários eram conduzidos individualmente ao escritório da empresa para formalizar a saída. Aqueles que se recusavam a assinar poderiam ser presos.

As demissões tinham efeitos que ultrapassavam a perda do emprego.

Como muitas famílias residiam em imóveis vinculados à companhia, a dispensa também poderia resultar na retirada da moradia, deixando trabalhadores, mulheres e crianças sem emprego e sem casa em uma cidade fortemente dependente da empresa.

O método funcionava como uma forma de terror econômico. Além de punir os dirigentes e militantes sindicais, servia para intimidar os demais empregados e impedir novas mobilizações.

Relatos de tortura e violência

Os documentos da COVEMG também registram relatos de torturas praticadas contra trabalhadores de João Monlevade.

Entre as vítimas citadas está Antônio Crispim de Oliveira, submetido, segundo o relatório, a choques elétricos, pau de arara, tapas simultâneos nos ouvidos — método conhecido como “telefone” —, privação de alimentos e simulação de fuzilamento.

Outro caso documentado é o de Virgílio Faustino Salomão, que teria sofrido socos, agressões físicas e violência sexual durante o período em que esteve sob custódia.

Sua esposa, Tereza Salomão, relatou as condições em que o encontrou após as agressões, apresentando febre, sinais de sofrimento físico e falta de cuidados básicos.

Os métodos descritos nos documentos de Minas Gerais também foram registrados em outras partes do país por comissões da verdade e pesquisas sobre os órgãos de repressão da ditadura.

Em João Monlevade, porém, foram empregados de maneira concentrada contra dirigentes, militantes sindicais e operários considerados politicamente suspeitos.

Documentos indicam articulação entre agentes públicos e interesses empresariais

O relatório da COVEMG também apresenta documentos que apontam para uma articulação entre autoridades militares, policiais e interesses empresariais.

Um registro datado de 30 de maio de 1964, assinado pelo tenente Amaro Zacarias Corgosinho, identificado como elemento de ligação entre autoridades militares e policiais, relacionava trabalhadores demitidos e apresentava observações sobre suas posições políticas.

Na prática, o documento funcionava como uma lista de vigilância e proscrição de operários considerados ligados ao movimento sindical ou a organizações de esquerda.

A Comissão também contextualizou a participação de representantes empresariais nas articulações políticas que antecederam o golpe.

Registros históricos mencionam a presença de dirigentes de grandes empresas em reuniões do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais de Minas Gerais, o IPES-MG, organização que atuou na mobilização civil e empresarial contrária ao governo de João Goulart.

Entre os nomes citados nas pesquisas está Joseph Hein, então presidente da Belgo-Mineira.

Essas informações reforçam a interpretação adotada por diferentes historiadores de que o regime não foi sustentado apenas pelas Forças Armadas, mas também por setores civis e empresariais interessados na mudança política e no enfraquecimento dos movimentos trabalhistas.

Perseguição continuou durante a abertura política

A violência contra o movimento sindical de João Monlevade não ficou restrita aos primeiros anos da ditadura.

Mesmo durante o período de abertura política, no final da década de 1970 e início dos anos 1980, dirigentes sindicais ainda enfrentavam ameaças e ações violentas.

Em 1980, a residência de João Paulo Pires de Vasconcelos foi invadida e incendiada.

O episódio ocorreu no momento em que sindicatos de diferentes regiões do país retomavam sua capacidade de mobilização e reivindicavam maior autonomia diante do Estado e das empresas.

O ataque demonstrou que, mesmo com a chamada distensão política, grupos contrários à reorganização sindical continuavam atuando no município.

Memória operária ajuda a compreender o presente

O caso de João Monlevade revela como a repressão política podia se associar ao controle econômico para atingir diretamente trabalhadores organizados.

As prisões, torturas, demissões e expulsões das moradias não tiveram apenas o objetivo de punir indivíduos. Elas buscavam quebrar uma estrutura coletiva de representação e impedir que os metalúrgicos continuassem organizados em defesa de direitos trabalhistas.

A história também ajuda a compreender os debates atuais sobre o futuro econômico do Médio Piracicaba.

Durante décadas, a mineração e a siderurgia determinaram a formação econômica e social da região. Atualmente, iniciativas como o Polo da Bioeconomia do Médio Piracicaba propõem a diversificação das atividades produtivas, com investimentos em inovação, pesquisa, sustentabilidade e novas cadeias econômicas.

Essa transição, no entanto, precisa considerar não apenas indicadores de produção, mas também os efeitos do desenvolvimento sobre emprego, renda, direitos sociais e qualidade de vida.

O avanço de uma região não pode ser medido somente pela riqueza gerada. Dados recentes mostram que o Brasil recuperou posições no Índice de Desenvolvimento Humano, enquanto pesquisas do IBGE também apontaram redução histórica da fome no país. Esses resultados reforçam a necessidade de relacionar crescimento econômico, proteção social e garantia de direitos.

Uma lição histórica para João Monlevade

João Monlevade pode não concentrar o maior número absoluto de vítimas da repressão em Minas Gerais, mas os documentos da COVEMG demonstram a existência de um episódio especialmente concentrado de perseguição antissindical.

Em uma única cidade, trabalhadores de uma mesma empresa foram investigados, presos, demitidos, torturados e afastados de suas moradias em uma operação que atingiu diretamente o núcleo da organização operária.

O caso evidencia que a ditadura não se sustentou apenas pela atuação dos órgãos policiais e militares. Ela também contou com apoio, colaboração ou convergência de interesses de setores econômicos que buscavam enfraquecer sindicatos e movimentos sociais.

Preservar essa memória é fundamental para compreender a formação de João Monlevade, reconhecer as vítimas e impedir que a violência política e a perseguição aos trabalhadores sejam tratadas como acontecimentos secundários da história local.

Fontes consultadas

ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO (APM). Fundo Secretaria de Segurança Pública. Série DOPS. Belo Horizonte.

BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório: textos temáticos. Brasília: CNV, 2014.

CENTRO DE REFERÊNCIA E MEMÓRIA DO TRABALHADOR (CEREM). Depoimentos da coleção de história oral. João Monlevade.

MINAS GERAIS. Comissão da Verdade em Minas Gerais. Relatório COVEMG. Belo Horizonte: COVEMG, 2017.

MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As universidades e o regime militar: cultura política, marxismo e golpe de 1964. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2014.

MOTTA, Rodrigo Patto Sá. O golpe de 1964 e a ditadura empresarial-militar: versões e controvérsias.

Leia também

Brasil registra queda histórica na fome, aponta IBGEg. Acesso em: 4 fev. 2025.

Polo da Bioeconomia do Médio Piracicaba avança na ALMG e pode impulsionar nova fase de desenvolvimento regional

Brasil avança no IDH, sobe cinco posições e supera o patamar anterior à pandemia