Muito além das figurinhas: como o álbum da Copa pode contribuir para o desenvolvimento emocional das crianças

Segundo Elizeu Assis, especialista em Psicologia da Criança pela PUC Minas, o brincar continua sendo uma das principais formas de expressão e elaboração emocional na infância
Segundo Elizeu Assis, especialista em Psicologia da Criança pela PUC Minas, o brincar continua sendo uma das principais formas de expressão e elaboração emocional na infância

Álbum da Copa do Mundo e desenvolvimento infantil: o que a psicanálise revela

Especialista explica como o tradicional álbum de figurinhas pode contribuir para o desenvolvimento emocional, a socialização e a autonomia das crianças

O álbum da Copa do Mundo e o desenvolvimento infantil podem estar mais relacionados do que muitos pais imaginam. Em um período marcado pela expectativa dos jogos, pela busca de figurinhas e pelos encontros para trocas, milhares de crianças vivenciam experiências que ultrapassam o simples entretenimento. Segundo o psicólogo, especialista em Psicologia da Criança pela PUC Minas, psicanalista e professor universitário Elizeu Assis, o álbum pode funcionar como um importante mediador de processos emocionais e sociais fundamentais para a infância.

Embora seja frequentemente associado ao universo esportivo, o álbum de figurinhas mobiliza desejos, expectativas, conquistas, frustrações e relações interpessoais. Na perspectiva da psicanálise, esses elementos possuem papel relevante na constituição da subjetividade da criança.

O que Freud ensinou sobre o brincar infantil

Desde os primeiros estudos sobre a infância, o médico e psicanalista Sigmund Freud observou que a brincadeira ocupa um lugar privilegiado na vida psíquica das crianças. Para Freud, brincar é uma forma de elaborar experiências, organizar emoções e dar sentido a acontecimentos que ainda não podem ser plenamente expressos pela linguagem.

Ao abrir um pacote de figurinhas, a criança vivencia uma pequena experiência emocional. Existe a expectativa pelo desconhecido, o desejo de encontrar determinada figurinha, a alegria da descoberta e, muitas vezes, a frustração quando ela não aparece ou surge repetida.

“Essas situações aparentemente simples reproduzem experiências que acompanharão o indivíduo ao longo de toda a vida. Aprender a esperar, lidar com a frustração e persistir diante das dificuldades são competências emocionais que começam a ser construídas na infância”, explica Elizeu Assis.

Como o álbum ajuda a lidar com a frustração

Um dos aspectos mais interessantes do álbum da Copa do Mundo e desenvolvimento infantil está na relação da criança com o desejo. Nem todas as figurinhas aparecem quando ela quer. Algumas tornam-se raras, exigem paciência ou dependem de trocas.

Na sociedade contemporânea, marcada pela rapidez e pela satisfação imediata, experiências que ensinam a esperar tornam-se cada vez mais importantes. A busca pela figurinha que falta ajuda a criança a compreender que nem todos os desejos podem ser atendidos imediatamente.

Segundo Assis, esse processo favorece o desenvolvimento da tolerância à frustração, habilidade considerada fundamental para a saúde emocional ao longo da vida.

“Mais do que uma brincadeira, a montagem do álbum da Copa mobiliza expectativas, desejos e experiências emocionais importantes para o desenvolvimento infantil, explica o psicólogo e psicanalista Elizeu Assis.”

O olhar de Winnicott sobre a brincadeira

O pediatra e psicanalista Donald Winnicott destacou que o brincar acontece em um espaço intermediário entre a realidade interna da criança e o mundo externo. É nesse espaço que ela desenvolve criatividade, autonomia e capacidade de estabelecer relações saudáveis.

O álbum de figurinhas pode ocupar exatamente essa função. Ao organizar páginas, acompanhar o progresso da coleção e estabelecer metas para completá-la, a criança participa de um processo que envolve planejamento, persistência e satisfação pessoal.

Além disso, muitas famílias transformam a montagem do álbum em uma atividade compartilhada, fortalecendo vínculos afetivos entre pais, filhos, irmãos e avós.

As trocas de figurinhas e o desenvolvimento social

As tradicionais trocas de figurinhas representam uma das experiências mais ricas do ponto de vista do desenvolvimento humano.

Durante essas interações, as crianças aprendem a negociar, argumentar, ouvir, ceder e respeitar limites. Também experimentam situações de cooperação, competição e pertencimento a grupos.

“Quando uma criança participa de uma troca de figurinhas, ela não está apenas negociando um objeto. Ela está aprendendo sobre convivência, reciprocidade e relações humanas”, observa Elizeu Assis.

Para crianças tímidas ou com dificuldades de socialização, esses encontros podem funcionar como importantes oportunidades de interação social em um ambiente relativamente seguro e estruturado.

“As tradicionais trocas de figurinhas favorecem a socialização, a negociação e a aprendizagem de habilidades fundamentais para a convivência com o outro.”

O desejo e as identificações na perspectiva psicanalítica

Outro aspecto importante do álbum da Copa do Mundo e desenvolvimento infantil está relacionado às escolhas feitas pelas crianças.

Não é raro que determinados jogadores, seleções ou equipes despertem maior interesse. Essas preferências frequentemente revelam processos de identificação, admiração e construção de referências simbólicas.

Na perspectiva do psicanalista Jacques Lacan, o desejo humano é construído na relação com o outro. Muitas vezes, o valor atribuído a uma figurinha não está apenas no objeto em si, mas no reconhecimento social que ela proporciona entre amigos e colegas.

Por isso, observar as escolhas da criança durante a montagem do álbum pode oferecer pistas importantes sobre seus interesses, referências e formas de inserção no grupo social.

Por que os pais devem valorizar essas experiências

Em uma época marcada pelo uso intenso das telas, atividades que promovem interação presencial, cooperação e brincadeiras compartilhadas tornam-se cada vez mais valiosas.

O álbum da Copa favorece experiências concretas que estimulam a comunicação, o raciocínio, a organização, a paciência e o contato com outras crianças. Além disso, oferece oportunidades para que pais e responsáveis acompanhem mais de perto aspectos do desenvolvimento emocional dos filhos.

Para Elizeu Assis, compreender o valor simbólico dessas atividades é fundamental. “Mais do que completar páginas, a criança constrói experiências emocionais. Mais do que encontrar figurinhas raras, aprende a lidar com o desejo, com a espera, com a convivência e com os desafios da vida.”

Mais do que colecionar figurinhas, muitas famílias colecionam memórias durante a montagem do álbum da Copa do Mundo.

Muito além da coleção

O álbum da Copa do Mundo e o desenvolvimento infantil demonstram como objetos simples podem assumir significados profundos na infância. Sob o olhar da psicanálise, brincar continua sendo uma das principais formas pelas quais a criança expressa emoções, constrói vínculos e aprende a se relacionar com o mundo.

Por trás de cada figurinha colada existe uma experiência de crescimento. E talvez seja justamente essa a maior conquista proporcionada pelo tradicional álbum da Copa do Mundo.

Sobre o autor

Elizeu Assis é psicólogo, especialista em Psicologia da Criança pela PUC Minas, psicanalista, professor universitário e pesquisador das relações entre infância, educação e desenvolvimento humano. Atua na Casa Laya – Psicologia e Psicanálise, espaço dedicado ao cuidado psicológico de crianças, adolescentes, adultos e famílias.📍 Endereço: Av. Alberto Lima, 1158, Nova Aclimação, João Monlevade/MG – CEP 35931-185. 📞 Informações e agendamentos: (31) 98892-2919