A jornada que traria as primeiras máquinas pesadas para o coração de Minas Gerais foi uma verdadeira epopeia, dividida em etapas intercontinentais. A missão começou com Lourenço Aquiles Lenoir, que desceu o Rio Doce para avaliar a viabilidade de usá-lo como rota de navegação. Convencido de seu potencial, partiu para a Inglaterra, onde adquiriu o equipamento que inauguraria a siderurgia na região: a forja catalã e o martelo.
O caminho de volta foi igualmente árduo. Lenoir trouxe as pesadas máquinas por via marítima até o Rio de Janeiro. De lá, subiu por cabotagem, entrando pela foz do Rio Doce e navegando contra a correnteza até atingir o primeiro grande obstáculo natural: a Cachoeira das Escadinhas, na região do atual Baixo Guandú, na divisa de Minas Gerais com o Espírito Santo.
Foi nesse ponto crítico que a operação mudou de comando e de tática. Guido Thomaz Marlière assumiu a coordenação, mas o verdadeiro protagonismo coube aos índios Borun (Krenak), exímios navegadores do Watu. Sem o profundo conhecimento deles sobre as correntezas, os perigos escondidos e os melhores caminhos no leito do rio, a empreitada teria sido impossível. Foi com seus braços e sua perícia que a carga foi transferida e subiu, a bordo de 12 canoas, os trechos sinuosos e perigosos do rio, até atingir o Porto de Canoas, na confluência do Rio Piracicaba com o Córrego do Onça Pequena.
Dali, a jornada fluvial chegava ao fim. As máquinas foram então transportadas por terra em uma última e penosa etapa, até o seu destino final: o local de São Miguel do Piracicaba, onde hoje se encontra o Solar Monlevade, no município de João Monlevade.
Essa operação, realizada há quase 200 anos, não foi apenas um feito de logística. Foi o momento em que o projeto colonial e industrial se aproveitou do saber ancestral indígena para introduzir no sertão as mesmas ferramentas que, séculos depois, escavariam as entranhas de seu território sagrado. A subida do rio pelas canoas dos Borun (Krenak) carregando o martelo era, sem que eles soubessem, a descida do primeiro golpe de um processo de devastação que seus netos e bisnetos seriam forçados a enfrentar.





