A Viagem do Martelo no Leito do Watú: Um Percurso entre Cachoeiras, Povos Indígenas e os Desafios da Navegação no Rio Doce
Em 1826, o engenheiro Jean (João) Monlevade lançou as bases de uma das mais ambiciosas iniciativas industriais do Brasil Imperial: a implantação de uma fábrica de ferro nas terras do antigo Arraial de São Miguel, atual João Monlevade. O empreendimento pretendia impulsionar a produção metalúrgica em Minas Gerais utilizando uma moderna forja catalã, tecnologia adquirida na Europa por seu sócio, Lourenço Aquiles Lenoir.
Para compreender melhor como surgiu essa fábrica e sua importância para a história da região, leia também A Cultura do Aço e o Pioneirismo de Monlevade.
O plano era ousado. As máquinas adquiridas por Lourenço Aquiles Lenoir na Inglaterra, em 1824, deveriam ser transportadas até Minas Gerais utilizando o Rio Doce, conhecido pelos povos indígenas Borun (Krenak) como Watú, o Rio Sagrado.
No dia 18 de setembro de 1827, teve início uma das maiores operações logísticas do Brasil do século XIX.
A carga, composta pela forja catalã, pelo grande martelo hidráulico e diversos equipamentos, pesava mais de sete toneladas. Inicialmente foi embarcada no Rio de Janeiro em uma sumaca, embarcação utilizada na navegação costeira, seguindo por cabotagem até a foz do Rio Doce.
A partir dali começava a etapa mais difícil da viagem.
O percurso pelo Watú exigia vencer inúmeras corredeiras e cachoeiras, enfrentar a presença constante de onças-pintadas, serpentes venenosas e navegar por um território ocupado pelos povos indígenas Borun (Krenak).
Os cronistas do século XIX chamavam esses povos de “Botocudos” e frequentemente os descreviam como antropófagos. Atualmente, a historiografia compreende essas descrições como parte da narrativa colonial utilizada para justificar a ocupação dos territórios indígenas, reconhecendo hoje o profundo conhecimento que esses povos possuíam sobre a navegação do Rio Doce.
A reconstrução completa dessa extraordinária operação logística pode ser conhecida na reportagem A Epopeia do Martelo: a logística que antecedeu a devastação.
Em 12 de novembro de 1827, Lourenço Aquiles Lenoir solicitou apoio ao francês Guido Thomaz Marlière, comandante das Divisões Militares do Rio Doce.
Profundo conhecedor da região, Marlière organizou uma verdadeira operação logística. Providenciou doze canoas, víveres, equipamentos e contou com a colaboração dos indígenas locais, cuja experiência na navegação do Watú foi decisiva para transportar as pesadas máquinas pelos trechos mais perigosos do rio.
Sem o conhecimento acumulado por esses navegadores indígenas sobre correntezas, bancos de areia, cachoeiras e locais de desembarque, dificilmente a expedição teria alcançado seu destino.
Após semanas de navegação, a expedição chegou ao Porto de Canoas, localizado na confluência do Rio Piracicaba com o Córrego do Onça Pequena.
Ali encerrava-se a etapa fluvial.
As máquinas foram então descarregadas e seguiram por terra utilizando carros de bois e força humana até o local onde seria construída a fábrica de Jean Monlevade.
A história desse local pode ser conhecida na reportagem Uma Cascata Artificial de 55 Metros de Altura no Solar Monlevade.
A viagem do martelo representa muito mais do que uma impressionante operação de engenharia e transporte.
Ela simboliza o encontro entre a tecnologia industrial europeia e o conhecimento ancestral dos povos indígenas sobre o território do Watú. Ao mesmo tempo, marca o início do processo de industrialização que transformaria profundamente o Médio Piracicaba e alteraria, de forma definitiva, a vida das comunidades indígenas que habitavam a região.
Quase dois séculos depois, esse percurso continua sendo um dos capítulos mais extraordinários da história da siderurgia brasileira e da formação histórica de João Monlevade.
Essa pesquisa integra o Projeto Cultural A Viagem do Martelo no Leito do Watú, iniciativa que reúne pesquisadores, historiadores e profissionais do audiovisual para reconstruir uma das mais importantes jornadas da história industrial brasileira.
Continue lendo
➡ A Cultura do Aço e o Pioneirismo de Monlevade
➡ A Epopeia do Martelo: a logística que antecedeu a devastação
➡ Uma Cascata Artificial de 55 Metros de Altura no Solar Monlevade





