A Epopeia do Martelo: A Logística que Antecedeu a Devastação

Grupo da Etnia Borun Krenak
Grupo da Etnia Borun Krenak

A jornada que traria as primeiras máquinas pesadas para o coração de Minas Gerais foi uma verdadeira epopeia, dividida em etapas intercontinentais. A missão começou com Lourenço Aquiles Lenoir, que desceu o Rio Doce para avaliar a viabilidade de usá-lo como rota de navegação. Convencido de seu potencial, partiu para a Inglaterra, onde adquiriu o equipamento que inauguraria a siderurgia na região: a forja catalã e o martelo. Para compreender como essa expedição se desenvolveu ao longo dos rios Doce e Piracicaba, leia também A Viagem do Martelo no Leito do Watú: Um Percurso entre Cachoeiras, Antropófagos e Imatós (Botoques).

O caminho de volta foi igualmente árduo. Lenoir trouxe as pesadas máquinas por via marítima até o Rio de Janeiro. De lá, subiu por cabotagem, entrando pela foz do Rio Doce e navegando contra a correnteza até atingir o primeiro grande obstáculo natural: a Cachoeira das Escadinhas, na região do atual Baixo Guandu, na divisa de Minas Gerais com o Espírito Santo. Essa etapa marcou o início de uma das mais impressionantes operações logísticas do Brasil do século XIX, posteriormente transformada em pesquisa histórica e em ações de educação patrimonial pelo Projeto Cultural A Viagem do Martelo, desenvolvido pelo Ponto de Cultura ACDLC.

Foi nesse ponto crítico que a operação mudou de comando e de tática. Guido Thomaz Marlière assumiu a coordenação, mas o verdadeiro protagonismo coube aos índios Borun (Krenak), exímios navegadores do Watú. Sem o profundo conhecimento deles sobre as correntezas, os perigos escondidos e os melhores caminhos no leito do rio, a empreitada teria sido impossível. Foi com seus braços e sua perícia que a carga foi transferida e subiu, a bordo de 12 canoas, os trechos sinuosos e perigosos do rio, até atingir o Porto de Canoas, na confluência do Rio Piracicaba com o Córrego do Onça Pequena.

Dali, a jornada fluvial chegava ao fim. As máquinas foram então transportadas por terra em uma última e penosa etapa, até o seu destino final: o antigo arraial de São Miguel do Piracicaba, onde posteriormente seria construída a residência de Jean Monlevade, hoje conhecida como Solar Monlevade, um dos mais importantes patrimônios históricos da região.

Essa operação, realizada há quase 200 anos, não foi apenas um feito de logística. Foi o momento em que o projeto colonial e industrial se aproveitou do saber ancestral indígena para introduzir no sertão as mesmas ferramentas que, séculos depois, escavariam as entranhas de seu território sagrado. A subida do rio pelas canoas dos Borun (Krenak), carregando o martelo, era, sem que eles soubessem, o primeiro passo de um processo de ocupação e exploração que marcaria profundamente a história do Médio Piracicaba. Atualmente, essa memória vem sendo resgatada por pesquisadores e instituições culturais por meio do Projeto Cultural A Viagem do Martelo, que busca preservar e difundir esse importante capítulo da formação histórica de João Monlevade e da siderurgia mineira.

Continue explorando esta série especial

A Viagem do Martelo no Leito do Watú: Um Percurso entre Cachoeiras, Antropófagos e Imatós (Botoques)
Conheça, em detalhes, o percurso realizado pelas máquinas desde a foz do Rio Doce até São Miguel do Piracicaba.
https://ofato.news/a-viagem-do-martelo-no-leito-do-watu-um-percurso-entre-cachoeiras-antropofagos-e-imatos-botoques-18-de-setembro-de-1827/

Projeto Cultural A Viagem do Martelo
Saiba como a pesquisa histórica deu origem a um projeto de valorização da memória regional e educação patrimonial.
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Uma Cascata Artificial de 55 Metros de Altura no Solar Monlevade
Conheça a história do Solar Monlevade e sua relação com a implantação da siderurgia no Médio Piracicaba.
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