Totem e tabu: o desejo, o ato e a vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno

Imagem ilustrativa sobre Totem e Tabu, de Freud, aplicada à análise das eleições presidenciais de 2026 e da disputa entre Flávio Bolsonaro e Lula.
Totem e Tabu oferece uma chave interpretativa para pensar desejo, interdição, identificação e ato nas eleições presidenciais de 2026.

Uma leitura psicanalítica das eleições de 2026, das bets, do futebol e daquilo que talvez a política não estivesse conseguindo escutar

Há resultados eleitorais que parecem encontrar explicações suficientes na economia, na organização partidária, nas pesquisas de opinião, nas redes sociais ou nos acontecimentos de uma campanha. Outros deixam um resto. Alguma coisa permanece depois das tabelas, dos percentuais e dos mapas eleitorais, como se os números revelassem, somente depois do acontecimento, que uma parcela da sociedade estava dizendo algo que os instrumentos disponíveis não conseguiam escutar inteiramente. A vitória de Flávio Bolsonaro no primeiro turno da eleição presidencial de 2026 permite formular essa pergunta.

Com 99,99% das urnas apuradas na madrugada de 5 de outubro, Flávio Bolsonaro aparecia com 56.104.268 votos, correspondentes a 47,03% dos votos válidos, enquanto Luiz Inácio Lula da Silva tinha 53.876.617 votos, ou 45,16%. A diferença superava 2,2 milhões de votos e levava os dois candidatos ao segundo turno. O resultado oficial constitui o ponto de partida desta reflexão, não sua explicação. Uma eleição dessa dimensão não pode ser atribuída a uma única causa. Economia, segurança pública, avaliação do governo, religião, identificação ideológica, rejeição aos candidatos, redes sociais, organização partidária e inúmeros fatores individuais participam da decisão eleitoral. A psicanálise não substitui a ciência política, a sociologia nem as pesquisas de opinião. Seu lugar, neste ensaio, é outro: perguntar pelo resto, por aquilo que eventualmente escapa à explicação consciente e, sobretudo, pelo que já estava acontecendo antes de o resultado se tornar evidente.

A pergunta é freudiana porque parte de uma suspeita fundamental: o sujeito não coincide integralmente com aquilo que diz sobre si mesmo. Entre intenção, desejo e ato existe uma distância. Isso não significa afirmar que o eleitor minta quando responde a uma pesquisa. Significa apenas reconhecer que aquilo que alguém fará no futuro não se reduz necessariamente à representação consciente que possui no presente. Uma pesquisa pergunta o que o eleitor pretende fazer; uma campanha disputa sua interpretação da realidade; um mercado de previsão negocia expectativas sobre aquilo que poderá acontecer; nenhurna, porém, registra exatamente aquilo que o eleitor efetivamente fez. Há uma diferença entre essas operações, e é justamente o ato que interessa à leitura psicanalítica.

A cronologia das semanas anteriores à votação exige, entretanto, uma análise mais cuidadosa da possível relação entre as bets e o movimento eleitoral. A Medida Provisória que estabeleceu a proibição somente foi editada em 25 de setembro, mas o conflito político e social em torno das apostas não começou naquele dia. A possibilidade de uma intervenção do governo já circulava anteriormente no debate público e, em 17 de setembro, tornou-se pública a informação de que o governo preparava uma medida contra os jogos on-line, embora naquele momento ainda se discutisse a preservação das apostas esportivas e dos patrocínios aos clubes. Poucos dias depois, em 20 de setembro, os mercados internacionais de previsão passaram a sinalizar de maneira expressiva uma expectativa favorável a Flávio Bolsonaro: a Kalshi atribuía 59% de probabilidade de vitória a Flávio e 42% a Lula, enquanto o Polymarket indicava 58% para Flávio.

Esses percentuais não eram pesquisas eleitorais nem mediam intenção de voto, mas revelavam que participantes desses mercados já negociavam uma expectativa de resultado diferente daquela que ainda predominava em parte do debate público. A simultaneidade desses acontecimentos não autoriza afirmar que a discussão sobre as bets tenha provocado o deslocamento eleitoral, mas tampouco permite descartá-la simplesmente porque a proibição formal ocorreu depois. Fazer isso significaria reduzir todo o fenômeno à data do ato jurídico e ignorar que uma interdição pode começar a produzir efeitos sociais e simbólicos quando surge como possibilidade, antes de se transformar efetivamente em lei.

O problema, portanto, não consiste em escolher antecipadamente entre afirmar ou negar uma relação causal. Consiste em investigar um processo no qual o deslocamento eleitoral, a circulação pública da possibilidade de restrição às apostas, a movimentação dos mercados de previsão e, posteriormente, a proibição efetiva ocorreram dentro de uma mesma conjuntura. É justamente essa temporalidade que interessa à hipótese psicanalítica: antes de a autoridade pronunciar definitivamente o “não”, a possibilidade da interdição já pode existir no campo social, ser antecipada pelos sujeitos e participar de conflitos que encontram nela uma forma de representação.

É nesse ponto que Totem e Tabu se torna especialmente provocador. No mito construído por Freud, os filhos vivem submetidos ao pai da horda primeva, que concentra poder, autoridade e acesso privilegiado à satisfação. Esse pai ocupa uma posição profundamente ambivalente. Os filhos o admiram e desejam ser como ele, ao mesmo tempo que o odeiam porque ele representa o obstáculo à realização de seus próprios desejos. Amor, identificação, inveja, admiração e hostilidade coexistem. O pai não é apenas aquele contra quem os filhos se revoltam; é também aquele com quem se identificam.

Os irmãos finalmente se unem, matam o pai e o devoram. O ato parece, inicialmente, realizar a libertação desejada. O obstáculo foi eliminado. Mas é justamente depois do parricídio que começa o verdadeiro problema freudiano. A morte do pai satisfaz o ódio, mas não elimina o amor nem a admiração. A ambivalência permanece, e aquilo que parecia resolvido pela eliminação física retorna sob outra forma. Surge o remorso, aparece a culpa e os filhos passam a impor a si próprios aquilo que anteriormente lhes era imposto pela presença paterna. Freud chama esse movimento de obediência posterior. O paradoxo é extraordinário: o pai morto pode tornar-se mais poderoso do que o pai vivo.

A consequência é decisiva. Matar o pai não significa necessariamente libertar-se dele. Pode significar interiorizá-lo. A autoridade que estava fora passa a operar dentro; a presença transforma-se em memória, o indivíduo converte-se em símbolo e aquilo que era imposição pessoal pode adquirir a forma de lei. O pai pode desaparecer enquanto pessoa e permanecer enquanto representação. É nesse movimento que o totem adquire sua importância: alguma coisa daquele que foi eliminado continua organizando simbolicamente a comunidade que acreditava ter se libertado dele.

Essa construção oferece uma chave interessante para pensar o ato político, desde que não confundamos analogia psicanalítica com explicação causal da eleição. Uma eleição também possui um antes, um momento do ato e um depois. Antes do voto existem fantasia, expectativa, identificação, esperança, ressentimento, medo, desejo de continuidade e desejo de ruptura. O eleitor imagina aquilo que poderá acontecer se determinada autoridade permanecer ou for retirada. Em seguida chega a urna e ocorre uma mudança fundamental: o sujeito deixa de responder à pergunta sobre aquilo que pretende fazer e efetivamente faz.

A cabine eleitoral acentua essa particularidade porque o ato é individual e secreto. Não há entrevistador, chefe, familiar, seguidor de rede social ou integrante de um grupo de WhatsApp observando diretamente a escolha. Existe o eleitor diante da urna. A pesquisa registra uma declaração sobre um ato futuro; a urna registra o ato realizado. Isso não torna a urna uma espécie de acesso mágico ao inconsciente, mas estabelece uma diferença importante entre representação e ação.

Totem e Tabu, entretanto, obriga-nos a ir além. O problema não termina no ato. No mito freudiano, é justamente depois do parricídio que os irmãos precisam enfrentar aquilo que não haviam antecipado. A fantasia de libertação encontra as consequências daquilo que efetivamente fizeram. Algo semelhante, em escala completamente diferente, pode ser pensado em relação aos atos políticos. Antes de uma escolha existe a possibilidade; depois dela existe uma realidade que o próprio ato ajudou a produzir.

Isso significa que um segundo ato nunca acontece exatamente nas mesmas condições do primeiro, porque entre ambos ocorreu o primeiro ato. Não se trata de afirmar que o eleitor necessariamente se arrependerá ou mudará sua escolha. Freud não oferece uma máquina de previsão eleitoral. O sujeito pode confirmar integralmente aquilo que fez anteriormente. Pode inclusive fortalecer sua identificação. Mas também pode reinterpretar o próprio ato, confrontar consequências que antes existiam apenas como hipótese, experimentar satisfação, medo, ambivalência ou arrependimento. O ponto teórico é mais elementar: entre dois atos existe tempo, e o tempo modifica as condições simbólicas em que o segundo ato acontece.

Essa questão se torna particularmente interessante numa eleição realizada em dois turnos. O segundo turno não é simplesmente o primeiro com menos candidatos. Entre uma votação e outra existe um acontecimento que não pode ser apagado: a sociedade conhece o resultado do primeiro turno. Aquilo que anteriormente era apenas uma possibilidade converteu-se em realidade eleitoral. O eleitor que volta à urna não é obrigado a modificar sua decisão, mas já não escolhe diante do mesmo cenário simbólico. O resultado anterior passou a integrar a realidade diante da qual ele realiza o novo ato.

É nesse ponto que aparece outra dimensão essencial do mito freudiano. Depois de eliminar o pai, os irmãos descobrem que nenhum deles pode simplesmente apropriar-se sozinho do lugar deixado vazio. Se um deles tentar transformar-se no novo pai absoluto, o conflito entre os irmãos recomeça. A saída imaginada por Freud passa pela renúncia compartilhada: aquilo que antes dependia da força de um pai exterior precisa converter-se em regra da comunidade. A autoridade pessoal transforma-se em lei.

A passagem é politicamente provocadora porque permite distinguir duas experiências muito diferentes do limite. Na primeira, o sujeito vive a proibição como vontade particular de uma autoridade: alguém me diz que não posso. Na segunda, o limite aparece como condição compartilhada da convivência: todos renunciamos a alguma coisa porque nenhum de nós pode ocupar sozinho o lugar absoluto do poder. O problema deixa então de ser simplesmente substituir um pai por outro. A possibilidade de uma comunidade dos irmãos surge quando o lugar da lei deixa de pertencer definitivamente a qualquer um deles.

A aproximação com a democracia deve ser feita com cuidado, porque Freud não estava escrevendo uma teoria constitucional. Ainda assim, a analogia é fértil. Em uma democracia, o governante ocupa temporariamente o lugar da autoridade e pode ser substituído sem que a ordem política precise desaparecer com ele. Outro indivíduo assume a função, enquanto a lei deveria permanecer acima de ambos. Uma democracia, nessa perspectiva, não se sustentaria na existência de um pai indispensável, mas justamente na possibilidade de substituí-lo sem destruir a comunidade.

Freud, contudo, introduz uma complicação. O pai pode desaparecer fisicamente e continuar existindo simbolicamente. É nesse ponto que Psicologia das Massas e Análise do Eu complementa Totem e Tabu. A identificação constitui uma das formas fundamentais de vínculo afetivo. O líder não é necessariamente apenas alguém a quem o grupo obedece. Pode ocupar o lugar de ideal e participar da própria constituição da identidade dos indivíduos que se reconhecem naquele grupo. Por isso, retirar um líder da cena não significa necessariamente dissolver aquilo que se organizou em torno dele. A pessoa pode sair, enquanto permanecem o nome, os símbolos, as narrativas, os afetos e os vínculos estabelecidos entre aqueles que se identificavam por meio dela.

Essa questão inevitavelmente aparece quando o caso brasileiro de 2026 é utilizado como ilustração. Flávio Bolsonaro não chegou à eleição como um nome sem história política. O sobrenome já estava associado a uma identidade política anteriormente constituída em torno de Jair Bolsonaro. Isso não significa que os mais de 56 milhões de votos recebidos por Flávio tenham uma motivação única, nem permite concluir que todos os seus eleitores tenham simplesmente transferido para ele uma identificação com seu pai. A pergunta psicanalítica é mais restrita: uma identificação política construída em torno de determinado líder pode sobreviver à ausência desse líder e encontrar outro representante?

Se isso ocorre em alguma medida, o problema deixa de ser apenas a pessoa do pai e passa a envolver aquilo que o pai representa. O totem, nesse sentido, não é simplesmente o pai original. É aquilo que possibilita que alguma coisa dele continue operando quando ele próprio já não ocupa diretamente o lugar. O nome pode sobreviver ao indivíduo; a identificação pode sobreviver à presença; o símbolo pode permanecer depois que aquele que inicialmente o encarnava deixou a cena.

É nesse contexto mais amplo que a questão das bets precisa retornar ao ensaio. Quando o governo decidiu proibir as apostas on-line em 25 de setembro, a movimentação eleitoral já apresentava sinais anteriores. Em 20 de setembro, como vimos, os mercados de previsão já atribuíam maior probabilidade de vitória a Flávio. Portanto, a sequência segundo a qual primeiro teria ocorrido a proibição, depois a revolta e finalmente a virada eleitoral não se sustenta cronologicamente. O que merece investigação é um processo mais complexo, no qual uma insatisfação anterior e um deslocamento eleitoral já estavam presentes quando a possibilidade de interdição começou a circular, os mercados de previsão passaram a registrar outra expectativa, a interdição tornou-se efetiva, o futebol reagiu e, finalmente, ocorreu o ato eleitoral.

Essa diferença modifica profundamente a função das bets na interpretação. Elas deixam de ser apresentadas como causa presumida da mudança e passam a ser consideradas como um possível objeto de condensação. Em torno das apostas já estavam reunidos dinheiro, risco, prazer, esperança, compulsão, tecnologia, futebol e fantasia de enriquecimento. Quando o Estado intervém, um novo elemento é introduzido nessa relação: a lei. O conflito deixa de envolver somente o sujeito e seu objeto de satisfação. Surge uma autoridade que estabelece um limite.

É novamente Totem e Tabu. A lei não precisa criar o desejo; ela encontra um desejo que já existe. A proibição possui sentido justamente porque há alguma coisa cuja satisfação se pretende limitar. E retirar um objeto desejado pode produzir uma reação que não coincide necessariamente com a avaliação racional que o próprio sujeito faz desse objeto. Alguém pode reconhecer que determinado comportamento lhe causa prejuízo e, simultaneamente, ressentir-se daquele que o impede de realizá-lo. Pode desejar proteção e rejeitar o protetor, pedir limites e odiar quem os estabelece. É a ambivalência que Freud encontrou na relação com a autoridade.

O futebol acrescentou uma dimensão particular a esse processo porque as bets não estavam apenas nos celulares dos apostadores. Estavam nas camisas, nos estádios, nas transmissões e no financiamento de alguns dos maiores clubes brasileiros. Depois da proibição, equipes da Série A argumentaram que perderiam receitas relevantes; a Reuters registrou que os clubes haviam recebido aproximadamente R$ 1 bilhão em publicidade de empresas de apostas em 2025, cerca de 10% de suas receitas recorrentes. A discussão, portanto, ultrapassava a relação individual entre apostador e plataforma e alcançava instituições que funcionam como poderosos objetos de identificação coletiva.

O torcedor oferece um exemplo cotidiano dessa identificação. Ele raramente se limita a dizer que seu clube venceu. Frequentemente diz que “nós vencemos”. Esse pequeno pronome revela uma operação importante: algo exterior ao indivíduo foi incorporado à sua identidade. A vitória do clube é experimentada como nossa vitória; sua derrota pode ser sentida como nossa derrota. Isso não demonstra que a proibição das bets tenha determinado votos de torcedores, e qualquer afirmação dessa natureza exigiria evidências que não possuímos. Mostra apenas que a decisão alcançou um campo no qual economia e identificação coletiva já estavam profundamente misturadas.

A cautela é indispensável justamente para preservar a força da hipótese psicanalítica. Não precisamos afirmar que as bets decidiram a eleição, nem atribuir a milhões de eleitores um mesmo desejo inconsciente. Também não precisamos transformar o Brasil inteiro em um único sujeito colocado no divã. A pergunta pode ser muito mais rigorosa: como uma insatisfação anteriormente dispersa encontra objetos através dos quais consegue representar-se? Um acontecimento pode não criar uma insatisfação e, ainda assim, oferecer-lhe uma linguagem, um símbolo ou um objeto em torno do qual afetos diferentes passam a organizar-se.

Mas o movimento decisivo de Totem e Tabu ainda está por acontecer, porque a história de Freud não termina quando os filhos matam o pai. Eles descobrem que continuam precisando organizar sua relação com aquilo que ele representava. O pai retorna como totem, a proibição reaparece como regra e a autoridade pode reaparecer como consciência. A comunidade precisa então enfrentar uma alternativa: procurar outro pai que ocupe o mesmo lugar ou construir uma ordem na qual nenhum dos irmãos possa transformar-se no pai absoluto.

Talvez esteja aí a questão política mais fecunda sugerida pela obra. Derrubar o pai não significa necessariamente superar o pai. Sua ausência pode fortalecer o símbolo. A tentativa de destruí-lo pode contribuir para sua transformação em totem. Outro personagem pode ocupar seu lugar, preservando essencialmente a mesma estrutura. A ruptura mais profunda somente se torna possível quando a comunidade reconhece que o lugar da lei não pertence definitivamente a nenhum de seus integrantes.

Por isso, atos eleitorais sucessivos não deveriam ser pensados simplesmente como repetição. Entre um voto e outro há tempo, e nesse intervalo existe elaboração. O eleitor pode confirmar sua escolha anterior, reconsiderá-la, reinterpretá-la ou fortalecer sua identificação. Nenhuma dessas possibilidades pode ser deduzida de Freud, mas todas são compatíveis com a concepção de um sujeito que não permanece imóvel diante das consequências simbólicas de seus próprios atos.

É precisamente por isso que o primeiro turno de 2026 pode ser tomado como ilustração, e não como demonstração da teoria. O resultado oficial colocou Flávio Bolsonaro à frente de Lula e produziu uma realidade que não existia da mesma maneira antes de 4 de outubro. A sociedade que participa do segundo turno já conhece o resultado do primeiro. Isso não permite prever o que acontecerá depois, mas significa que o próximo ato ocorrerá diante de uma realidade modificada pelo ato anterior.

A questão psicanalítica, portanto, não deveria ser apenas por que Flávio Bolsonaro venceu o primeiro turno, nem se as bets explicam o resultado. A pergunta é simultaneamente anterior e posterior: o que já estava acontecendo antes do ato e o que passa a acontecer depois que esse ato foi realizado?

Antes dele havia discurso, desejo, identificação, ressentimento, esperança, proibição e fantasia. Depois dele existe uma nova realidade. É diante dessa realidade que qualquer ato posterior acontecerá.

Talvez seja essa a contribuição mais provocadora de Totem e Tabu para pensar a política. O acontecimento decisivo não é simplesmente a morte do pai, mas aquilo que os filhos fazem depois dela. Se procuram imediatamente outro pai, a estrutura permanece. Se transformam o pai morto em um totem intocável, ele pode tornar-se ainda mais poderoso. Se cada irmão tenta ocupar sozinho o lugar deixado vazio, a luta recomeça. A ruptura somente adquire outro significado quando se torna possível reconhecer que o lugar da lei não pertence definitivamente a nenhum deles.

Freud não oferece uma resposta eleitoral para essas perguntas. Muito menos permite transformar a psicanálise em instrumento de previsão do segundo turno. Mas sua teoria impede também que tratemos o primeiro ato como destino. O voto realizado em 4 de outubro produziu uma realidade que antes existia apenas como possibilidade e, ao fazê-lo, modificou as próprias condições nas quais o próximo voto será realizado. Quem retorna à urna já conhece o resultado do primeiro turno, sabe quem ficou à frente, percebe com maior nitidez a possibilidade concreta de vitória de cada candidato e pode confrontar aquilo que antes era expectativa com aquilo que agora se apresenta como realidade.

É precisamente nesse intervalo entre um ato e outro que a questão freudiana se torna mais interessante. Em Totem e Tabu, o ato não encerra o conflito. Ao contrário, produz novas condições psíquicas. Depois da satisfação da hostilidade contra o pai, reaparecem os sentimentos afetivos que coexistiam com ela; surge o remorso, constitui-se a culpa e aquilo que parecia ter sido resolvido pelo ato retorna sob outra forma. O pai morto pode, então, tornar-se mais poderoso do que o pai vivo. Não há razão para transportar mecanicamente esse processo para uma eleição, mas há nele uma advertência importante: realizar um desejo e imaginar sua realização não são experiências idênticas. Entre uma coisa e outra existe o encontro com as consequências.

É justamente por isso que o resultado do primeiro turno não permite deduzir automaticamente o resultado do segundo. Flávio Bolsonaro chegar à frente transforma sua vitória, antes apenas possível, em uma possibilidade concreta de poder. Para alguns eleitores, essa concretização pode reforçar a escolha já realizada; para outros, pode produzir novas avaliações, ambivalências ou reposicionamentos. O mesmo vale para Lula: sua passagem ao segundo turno e a nova configuração da disputa podem reorganizar identificações e escolhas de eleitores que, no primeiro turno, votaram em outros candidatos, anularam o voto, votaram em branco ou não compareceram. Nada disso demonstra que ocorrerá uma virada. Mostra apenas por que ela permanece teoricamente possível.

Uma eventual mudança do resultado, portanto, não precisaria ser interpretada como contradição do eleitor. Poderia ser compreendida como consequência da própria temporalidade do ato. O primeiro voto respondeu a uma determinada configuração política; o segundo responderá a outra, criada em parte pelo próprio primeiro turno. Entre ambos há informação nova, percepção das consequências, reorganização das alternativas e elaboração. O sujeito que retorna à urna pode ser o mesmo, mas a situação diante da qual decide já não é.

Talvez esteja aí a questão mais instigante deixada por Totem e Tabu. O desejo pode conduzir ao ato, mas o ato não encerra o desejo. Ele produz consequências que retornam sobre o próprio sujeito e podem reorganizar sua relação com aquilo que desejava. É por isso que a história freudiana verdadeiramente começa depois da morte do pai: somente então os irmãos precisam descobrir o que significa viver na realidade que seu próprio ato produziu.

O primeiro turno brasileiro pode ser pensado, com todas as cautelas necessárias, a partir dessa temporalidade. A urna de 4 de outubro mostrou aquilo que os eleitores fizeram. A urna seguinte mostrará o que fizeram depois de saber o que haviam feito coletivamente na primeira. Pode haver repetição, reforço ou deslocamento. Uma vitória de Flávio Bolsonaro confirmaria o primeiro movimento; uma eventual virada de Lula mostraria que entre os dois atos ocorreu uma reorganização suficientemente grande para modificar o resultado. Nenhuma das duas possibilidades pode ser deduzida da psicanálise.

É exatamente por isso que o segundo turno se torna teoricamente tão interessante. A pergunta já não é apenas por que Flávio Bolsonaro ficou à frente no primeiro ato. É saber o que acontece com o desejo depois que ele encontra a possibilidade concreta de sua realização. Talvez o resultado seguinte nos permita compreender melhor o primeiro.

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Nota: As reflexões e ideias desenvolvidas neste texto foram enriquecidas pela profícua interlocução com o advogado Dr. Sandro Roberto de Almeida, a quem agradeço pela generosa troca de ideias e pelas contribuições ao debate.

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