Número de municípios com gratuidade integral cresceu nos últimos anos; experiências mineiras mostram benefícios para os passageiros, enquanto financiamento, aumento da demanda e qualidade do serviço permanecem entre os principais desafios
A Tarifa Zero deixou de ser uma experiência restrita a poucas cidades brasileiras e passou a ocupar espaço crescente no debate sobre mobilidade urbana. Em Minas Gerais, municípios como Mariana e Ouro Branco estão entre os que adotaram a gratuidade no transporte coletivo. Ao mesmo tempo, novas experiências pelo país reforçam a discussão sobre acesso ao transporte, qualidade do serviço e capacidade dos governos municipais de financiar o sistema no longo prazo.
Em março de 2026, levantamento divulgado pelo Mobilize Brasil contabilizava 146 municípios brasileiros com Tarifa Zero universal, modalidade em que a gratuidade é oferecida todos os dias, para todos os passageiros e em toda a rede municipal. Posteriormente, levantamento da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), divulgado em junho, apontou 143 municípios com gratuidade integral. A diferença reflete, entre outros fatores, mudanças nos programas municipais, já que algumas cidades implantaram a política e depois voltaram a cobrar passagem.
Esse crescimento é expressivo quando comparado ao cenário de poucos anos atrás. Portanto, a Tarifa Zero passou de uma política localizada para uma experiência presente em diferentes regiões do país.
Mariana mantém experiência iniciada em 2022
Em Mariana, as discussões sobre a implantação da Tarifa Zero começaram em 2021. O programa entrou em funcionamento em 1º de fevereiro de 2022, inicialmente em caráter experimental.
A gratuidade reduziu diretamente os gastos dos passageiros com deslocamentos. Por outro lado, também ampliou a discussão sobre a qualidade do transporte oferecido. Questões como superlotação, horários e atendimento das linhas passaram a fazer parte das cobranças dos usuários.
Em 2023, a Câmara Municipal aprovou a continuidade do programa. Além disso, a política passou a integrar o planejamento orçamentário municipal. A Lei Orçamentária Anual de Mariana para 2025 destinou R$ 13,5 milhões ao Fundo Municipal de Transporte Coletivo para implementação e manutenção do Programa Tarifa Zero.
A experiência demonstra uma das principais características do modelo: retirar a cobrança na catraca não significa eliminar os custos do transporte. Nesse sistema, o poder público assume o financiamento.
Ouro Branco transformou programa em política permanente
Ouro Branco percorreu caminho semelhante. Em 5 de abril de 2022, a Câmara Municipal aprovou projeto que autorizou o Executivo a instituir, inicialmente de forma temporária e experimental, a subvenção necessária para garantir a isenção integral da tarifa aos usuários.
Posteriormente, a Lei Municipal nº 2.608, de 9 de setembro de 2022, instituiu o Programa Tarifa Zero. A gratuidade começou a funcionar em 3 de outubro daquele ano. Após o período inicial de avaliações e adequações, o município tornou o programa permanente em 2023.
Em outubro de 2025, a Câmara de Ouro Branco registrou os três anos de funcionamento da Tarifa Zero. Segundo o Legislativo, o transporte gratuito atendia tanto a zona urbana quanto a rural do município.
Gratuidade pode ampliar acesso ao transporte coletivo
As experiências acumuladas pelos municípios mostram que os efeitos da Tarifa Zero vão além da economia do valor da passagem.
Ao eliminar a cobrança direta, o transporte coletivo torna-se mais acessível para trabalhadores, estudantes, pessoas que precisam chegar aos serviços de saúde e famílias para as quais o custo diário dos deslocamentos representa parcela relevante do orçamento.
Além disso, a gratuidade pode aumentar significativamente a procura pelo transporte coletivo. Esse crescimento, entretanto, exige planejamento para que a frota, os horários e a estrutura do sistema acompanhem a nova demanda.
Esse é um dos pontos centrais do debate atual. Em São Caetano do Sul, por exemplo, a prefeitura decidiu restringir em 2026 o programa de Tarifa Zero aos moradores depois que o número de usuários cresceu fortemente desde a implantação da gratuidade. Segundo dados divulgados pelo município, o volume diário passou de cerca de 20 mil para aproximadamente 80 mil passageiros.
O caso evidencia, portanto, que ampliar o acesso ao transporte exige capacidade operacional para absorver os novos passageiros.
O desafio está no financiamento de longo prazo
Outro ponto decisivo é a origem dos recursos.
Quando o passageiro deixa de pagar a passagem, continuam existindo os custos com motoristas, combustível ou energia, manutenção, renovação da frota e operação das linhas. A diferença é que outras fontes precisam financiar essas despesas.
Por isso, avaliar uma política de Tarifa Zero exige observar não apenas a gratuidade, mas também quanto o município gasta por ano, como contrata o serviço, quantos passageiros transporta, qual é o custo por quilômetro rodado e quais fontes de receita sustentam o programa.
O professor de Economia da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) Victor Maia Senna Delgado já chamou atenção para esse aspecto ao analisar o modelo.
“A tarifa zero pode ser difícil, mas não é uma missão impossível.”
Entretanto, os resultados não são uniformes. Levantamento divulgado em junho de 2026 mostrou que oito municípios que haviam adotado a gratuidade voltaram a cobrar passagem. Ao mesmo tempo, mais de uma centena de cidades mantêm sistemas integralmente gratuitos.
Tarifa Zero interessa diretamente ao Médio Piracicaba
A discussão ganha importância especial para João Monlevade e municípios do Médio Piracicaba.
O próprio O Fato News acompanha há anos os gastos públicos com o transporte coletivo de João Monlevade e o debate sobre diferentes formas de financiamento do sistema. Em 2025, levantamento publicado pelo portal mostrou que, embora o passageiro pagasse R$ 4 diretamente na catraca, o custo estimado do sistema chegava a R$ 8,17 por passageiro quando considerados os recursos públicos destinados ao transporte.
São Gonçalo do Rio Abaixo também entrou nesse debate. Em 2023, um projeto para implantação da Tarifa Zero no transporte municipal avançou na Câmara. Paralelamente, ocorreram discussões sobre os custos necessários para sustentar o serviço.
Assim, a discussão regional não se resume à pergunta sobre cobrar ou não cobrar passagem.
À medida que Mariana, Ouro Branco e dezenas de outros municípios acumulam experiências com a gratuidade, surgem parâmetros concretos para avaliar diferentes modelos.
A questão passa a ser: quanto custa manter a Tarifa Zero, de onde vêm os recursos, quantas pessoas são beneficiadas e qual qualidade de transporte é entregue à população?
As respostas a essas perguntas serão fundamentais para determinar se a expansão da gratuidade conseguirá combinar inclusão social, eficiência do transporte coletivo e sustentabilidade financeira.
Principais dúvidas sobre a Tarifa Zero
Tarifa Zero significa que o transporte público não tem custo?
Não. O passageiro deixa de pagar diretamente pela viagem, mas o sistema continua tendo despesas. Portanto, o financiamento passa a vir principalmente do orçamento público ou de outras fontes definidas pelo município.
Mariana possui Tarifa Zero?
Sim. O programa começou em 2022 e, posteriormente, teve sua continuidade aprovada. Além disso, o orçamento municipal passou a prever recursos específicos para sua manutenção.
Ouro Branco mantém transporte coletivo gratuito?
Sim. A Tarifa Zero começou a funcionar em outubro de 2022 e, posteriormente, tornou-se permanente.
Quantas cidades brasileiras têm Tarifa Zero?
O número varia conforme a metodologia e as mudanças nos programas municipais. Levantamento do Mobilize Brasil apontava 146 municípios com Tarifa Zero universal em março de 2026, enquanto estudo divulgado pela NTU em junho registrava 143.
Qual é o principal desafio da Tarifa Zero?
Garantir uma fonte sustentável de financiamento e, ao mesmo tempo, assegurar que o crescimento da demanda seja acompanhado por frota, frequência, cobertura e qualidade adequadas.
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