Declarações feitas na Câmara foram denunciadas como preconceituosas e expressão de racismo religioso; reconhecimento posterior de falta de conhecimento sobre o tema amplia debate sobre preparo, responsabilidade e limites do discurso parlamentar
JOÃO MONLEVADE (MG) — Falas de vereadores de João Monlevade sobre referências ligadas à cultura e às religiões de matriz africana provocaram reação de entidades, representantes do movimento negro e integrantes dessas tradições religiosas. As manifestações, feitas durante reunião da Câmara Municipal, receberam críticas por preconceito, intolerância e racismo religioso e abriram uma discussão que vai além das palavras utilizadas: qual é a responsabilidade de um representante eleito quando decide falar publicamente sobre uma cultura ou religião que desconhece?
A controvérsia começou na reunião de 2 de setembro, quando os vereadores Marquinho Dornelas (Republicanos) e Sinval Dias (PL) se manifestaram sobre referências afro-brasileiras que haviam aparecido em uma atividade escolar. Durante a discussão, surgiram menções a Zé Pilintra, Exu e “macumba”. A maneira como os parlamentares trataram o assunto provocou reação de representantes das religiões de matriz africana.
Uma semana depois, em 9 de setembro, a discussão voltou ao plenário. Representantes da Associação Afrodescendente de João Monlevade e Região (AMAD) e do Conselho Municipal de Promoção da Igualdade Racial (Compir) ocuparam a Tribuna Popular e contestaram as manifestações.
A reação ganhou ainda mais relevância quando Sinval Dias reconheceu posteriormente que havia falado sobre um assunto que não conhecia suficientemente e admitiu ter empregado palavras inadequadas ao abordar Exu e Zé Pilintra.
O reconhecimento coloca no centro da controvérsia uma questão que ultrapassa o episódio: o desconhecimento sobre temas culturais e religiosos pode produzir interpretações precipitadas e reproduzir preconceitos quando chega à tribuna de uma instituição pública.
Falas provocaram reação contra preconceito
O debate ganhou força pela maneira como referências relacionadas às tradições afro-brasileiras apareceram nos pronunciamentos.
Durante sua manifestação, Sinval Dias utilizou a palavra “macumba” e fez referências a Exu e Zé Pilintra. As declarações provocaram críticas porque esses elementos pertencem a tradições que historicamente enfrentam estigmatização e preconceito.
A reação, portanto, não ocorreu simplesmente porque os vereadores apresentaram uma opinião diferente.
Representantes da comunidade afro-brasileira questionaram a forma como os parlamentares interpretaram elementos culturais e religiosos sobre os quais demonstraram conhecimento limitado.
A controvérsia passou, então, a envolver uma questão maior: até que ponto um agente público deve buscar conhecimento antes de usar a tribuna para emitir juízos sobre uma cultura, uma religião ou um grupo social?
Esse questionamento ganhou força porque a fala parlamentar não possui apenas dimensão individual. Quando um vereador se manifesta no plenário, sua palavra integra o debate institucional e pode influenciar a maneira como determinados grupos são vistos pela sociedade.
Desconhecimento expõe despreparo para tratar do tema
O episódio revela um problema que vai além do vocabulário utilizado pelos vereadores. Ele coloca em discussão o preparo dos representantes eleitos para interpretar temas culturais, religiosos e raciais antes de transformá-los em pronunciamentos públicos.
Nenhum vereador precisa dominar profundamente todas as manifestações culturais presentes na sociedade. Entretanto, o exercício do mandato exige cautela justamente diante daquilo que o parlamentar desconhece.
Antes de emitir um julgamento, um representante público pode buscar informações, consultar especialistas, ouvir os grupos envolvidos e compreender o contexto sobre o qual pretende falar.
Nesse episódio, porém, a sequência apontada pela própria repercussão seguiu outro caminho. Referências culturais e religiosas que escapavam ao conhecimento dos parlamentares receberam interpretações precipitadas e chegaram ao plenário antes de uma compreensão adequada do tema.
O resultado foi uma discussão marcada por associações que representantes da comunidade afro-brasileira classificaram como preconceituosas, intolerantes e expressão de racismo religioso.
A questão, portanto, não é exigir conhecimento enciclopédico dos vereadores. É discutir a responsabilidade de quem ocupa um cargo público diante dos limites do próprio conhecimento.
Sinval reconheceu que falou sem conhecimento suficiente
O reconhecimento posterior de Sinval Dias tornou esse aspecto ainda mais evidente.
Depois da repercussão, o vereador admitiu que havia tratado de um assunto que não conhecia suficientemente. Além disso, reconheceu o uso inadequado de palavras ao abordar Exu e Zé Pilintra.
A admissão representa uma resposta importante diante das críticas. Ao mesmo tempo, porém, reforça uma das questões levantadas pelos movimentos que reagiram às declarações: um agente político utilizou a tribuna para emitir opinião sobre referências culturais e religiosas que depois reconheceu não conhecer de maneira suficiente.
Não se trata de impedir o parlamentar de falar.
Trata-se de perguntar se o desconhecimento deveria ter produzido uma conclusão ou, ao contrário, uma dúvida.
Quando alguém ocupa um mandato público, não saber pode ser justamente a razão para pesquisar antes de falar. Afinal, preencher aquilo que se desconhece com impressões pessoais, estereótipos ou conceitos previamente formados aumenta o risco de reproduzir preconceitos.
Nesse sentido, o episódio expõe uma fragilidade importante no exercício da representação política: a precipitação em julgar aquilo que não se conhece.
Preconceito também pode nascer da ignorância
O episódio ajuda a compreender por que a reação ganhou força.
O preconceito nem sempre aparece na forma de uma declaração explicitamente hostil. Muitas vezes, ele também se reproduz quando alguém interpreta outra cultura exclusivamente a partir de suas próprias referências, sem conhecer seus significados, sua história ou a maneira como seus integrantes compreendem aquela tradição.
No caso das religiões de matriz africana, esse mecanismo possui uma dimensão histórica especialmente sensível.
Durante décadas, símbolos, entidades, práticas e expressões dessas tradições sofreram perseguição e receberam interpretações depreciativas. Por isso, associações construídas a partir do desconhecimento não são socialmente neutras.
Além disso, quando essas associações partem de agentes públicos, o problema adquire dimensão institucional.
Não se trata mais apenas de uma opinião desinformada manifestada numa conversa privada. Trata-se da palavra de alguém investido de mandato popular e pronunciada dentro de uma instituição do Estado.
AMAD aponta intolerância e racismo religioso
A reação ganhou dimensão institucional durante a reunião de 9 de setembro.
A presidente da Associação Afrodescendente de João Monlevade e Região (AMAD), Alexsandra Mara Felipe Fernandes, utilizou a Tribuna Popular para contestar as manifestações realizadas na semana anterior.
Alexsandra classificou o episódio como uma questão de intolerância religiosa e racismo religioso e defendeu respeito às religiões de matriz africana.
O integrante do Compir, Weuller Viana Caldeira Magalhães, também utilizou a Tribuna Popular.
Com isso, representantes dos grupos diretamente relacionados ao debate passaram a ocupar o mesmo espaço institucional onde as declarações haviam ocorrido.
A controvérsia deixou, assim, de ser apenas uma discussão entre vereadores. Ela colocou frente a frente o discurso parlamentar e a resposta de cidadãos que consideraram suas tradições atingidas pelas manifestações.
Mandato não transforma desconhecimento em argumento
Vereadores possuem direito à opinião, inclusive sobre assuntos controversos. Entretanto, o mandato parlamentar não transforma desconhecimento em conhecimento nem preconceito em argumento político.
O vereador fiscaliza políticas públicas, vota leis, discute educação, cultura, direitos humanos, saúde e orçamento. Suas decisões alcançam pessoas que possuem crenças, experiências culturais e trajetórias muito diferentes das suas.
Por isso, exercer um mandato também exige capacidade de reconhecer os próprios limites.
Existe uma diferença importante entre perguntar e sentenciar. Da mesma maneira, existe diferença entre buscar esclarecimento e construir uma interpretação precipitada a partir das próprias referências culturais ou religiosas.
Foi justamente essa fronteira que a controvérsia colocou em discussão.
Se um parlamentar desconhece o significado de Exu, Zé Pilintra ou de determinada manifestação das religiões de matriz africana, o caminho responsável é buscar informação antes de utilizar essas referências para sustentar um pronunciamento público.
A tribuna aumenta a responsabilidade
Esse dever de cautela torna-se ainda maior quando a manifestação ocorre dentro da Câmara Municipal.
A palavra de um vereador não possui o mesmo peso institucional de uma conversa particular. Ela integra a atividade parlamentar, alcança a população, influencia debates e pode contribuir tanto para combater quanto para reforçar determinadas interpretações presentes na sociedade.
Por isso, a liberdade de manifestação inerente ao mandato vem acompanhada de responsabilidade política.
O episódio ocorrido em João Monlevade evidencia o risco de uma sequência problemática:
desconhecimento, interpretação precipitada, pronunciamento público, reprodução de estereótipos e reação dos grupos atingidos.
O reconhecimento posterior do erro é importante. Entretanto, ele também produz outra pergunta: por que foi necessário chegar à repercussão pública para que surgisse a percepção de que faltava conhecimento sobre o assunto?
Despreparo também é uma questão política
É nesse ponto que a discussão ultrapassa o debate sobre intolerância religiosa.
A reação de representantes da AMAD, do Compir e das religiões de matriz africana coloca diante do eleitor uma questão relacionada à própria qualidade da representação parlamentar.
Um vereador pode questionar uma política pública, fiscalizar a administração, discordar de uma iniciativa ou cobrar esclarecimentos do Executivo. Essas atribuições fazem parte do mandato.
Entretanto, fiscalizar não significa formular conclusões antes de compreender os fatos. Da mesma maneira, discordar não dispensa o parlamentar de conhecer minimamente aquilo que pretende criticar.
Quando um representante eleito interpreta de maneira precipitada temas culturais que escapam ao seu universo de conhecimento, o episódio pode revelar mais do que uma opinião equivocada.
Pode revelar despreparo para lidar com a diversidade social que o próprio mandato exige representar.
Essa não é uma questão secundária. Vereadores participam diretamente da construção de políticas públicas para educação, cultura, promoção da igualdade racial e direitos dos cidadãos.
Portanto, a capacidade de ouvir, pesquisar e compreender realidades diferentes da própria constitui parte do exercício responsável da representação política.
Reação chegou ao plenário

A mobilização não permaneceu apenas nas redes sociais.
Representantes das religiões de matriz africana acompanharam a reunião da Câmara de 9 de setembro. Além disso, integrantes da AMAD e do Compir utilizaram a Tribuna Popular para apresentar diretamente suas críticas.
A sequência dos acontecimentos mostra como o episódio cresceu.
Primeiro vieram as declarações dos vereadores. Depois, representantes da comunidade afro-brasileira reagiram. Em seguida, entidades se posicionaram. Finalmente, a mobilização chegou novamente ao plenário, desta vez com os atingidos pelo discurso ocupando o espaço institucional.
Portanto, existem elementos para falar em mobilização pública contra as manifestações.
Entretanto, isso não autoriza apresentar a reação como opinião de toda a população de João Monlevade. A crítica precisa ser corretamente atribuída aos grupos, entidades e cidadãos que efetivamente se manifestaram.
Debate chega à Presidência da Câmara
A repercussão ganhou também uma dimensão política.
Publicações que passaram a circular nas redes sociais relacionaram a controvérsia à futura escolha da Presidência da Câmara Municipal.
Uma das peças afirma que “João Monlevade merece uma presidência da Câmara que respeite todas as religiões”. O material também pede rejeição a uma presidência “marcada pela intolerância religiosa” e à “normalização do preconceito”.
Assim, setores envolvidos na mobilização passaram a levar o episódio para além das declarações feitas em setembro.
A postura de vereadores diante da diversidade religiosa começa a aparecer também como argumento no debate sobre quem deve comandar o Legislativo.
Nesse contexto, a discussão sobre preparo ganha uma dimensão adicional.
Presidir uma Câmara não significa representar apenas determinado grupo político, religioso ou eleitoral. O cargo exige conduzir uma instituição que representa uma cidade plural.
Quem representa a cidade precisa compreender sua diversidade
João Monlevade não possui uma única religião, uma única cultura ou uma única experiência social.
Embora vereadores tenham convicções pessoais, eles não representam apenas os cidadãos que compartilham sua fé, seus valores ou suas referências culturais.
O mandato pertence a uma sociedade diversa.
Por isso, reconhecer o desconhecimento sobre determinado assunto não deveria representar fragilidade política. Ao contrário, reconhecer limites pode ser o primeiro passo para buscar conhecimento e exercer o cargo com responsabilidade.
O problema aparece quando o desconhecimento não produz dúvida, mas certeza; não produz pesquisa, mas julgamento; não produz escuta, mas discurso.
A controvérsia de setembro coloca exatamente essa questão diante da Câmara de João Monlevade.
Mais importante do que perguntar se os vereadores conheciam suficientemente Exu, Zé Pilintra ou as religiões de matriz africana é perguntar se buscaram conhecer antes de falar.
Liberdade religiosa vale para todas as crenças
A discussão também envolve um princípio básico do Estado brasileiro: a liberdade religiosa não protege somente as religiões majoritárias.
O poder público precisa respeitar cidadãos independentemente de suas crenças. Isso inclui cristãos, espíritas, umbandistas, candomblecistas, judeus, muçulmanos, integrantes de outras tradições e também aqueles que não professam religião.
Consequentemente, autoridades públicas precisam considerar essa diversidade quando utilizam a tribuna.
Para representantes das tradições afro-brasileiras, o problema das manifestações não estava simplesmente na existência de uma opinião divergente. A crítica se concentrou na linguagem e nas associações utilizadas para falar de crenças que historicamente enfrentam preconceito.
Foi essa percepção que levou representantes da comunidade afro-brasileira a classificar as manifestações como intolerância e racismo religioso.
Reconhecer o erro é importante, mas não encerra o debate
O reconhecimento feito por Sinval Dias representa um desenvolvimento relevante.
Admitir que falou sobre um assunto que não conhecia suficientemente e reconhecer o emprego inadequado de determinadas palavras abre espaço para revisão da própria postura.
Entretanto, isso não elimina a discussão provocada pelo episódio.
Ao contrário, a admissão ajuda a revelar um problema que pode servir de aprendizado para o próprio Legislativo: antes de transformar desconhecimento em discurso público, agentes políticos precisam buscar informação.
A repercussão também mostra que grupos historicamente atingidos por preconceito estão dispostos a contestar publicamente interpretações que considerem ofensivas ou estigmatizantes.
Por isso, o episódio deixou de tratar apenas de uma declaração feita em determinada sessão.
Ele passou a discutir preconceito, desconhecimento, responsabilidade política e preparo para lidar com a diversidade no exercício de um mandato público.
O que o episódio deixa para a Câmara
A principal questão talvez esteja justamente nesse ponto.
Vereadores não precisam dominar todos os temas antes de assumirem um mandato. Entretanto, precisam compreender que desconhecer determinado assunto exige cautela.
O poder público dispõe de meios para ouvir especialistas, consultar entidades, solicitar informações técnicas e conhecer a realidade das comunidades atingidas por determinada decisão ou discurso.
Quando esses caminhos são ignorados, aumenta o risco de que impressões pessoais ocupem o lugar da informação.
No caso ocorrido em João Monlevade, o reconhecimento posterior de desconhecimento por um dos próprios envolvidos reforçou essa preocupação.
Por isso, a pergunta que permanece não é apenas sobre o que os vereadores disseram.
É também sobre como representantes eleitos devem agir quando precisam discutir culturas, religiões e experiências sociais que escapam ao seu próprio universo de conhecimento.
O episódio oferece uma resposta importante: antes de julgar, é preciso conhecer.
E, para quem exerce mandato público, essa não é apenas uma questão de cortesia. É parte do preparo necessário para representar uma sociedade plural.
Perguntas frequentes
Por que as falas dos vereadores provocaram reação?
Representantes da comunidade afro-brasileira consideraram que a maneira como referências às religiões de matriz africana apareceram no debate demonstrou desconhecimento e reproduziu preconceitos. A presidente da AMAD classificou o episódio como intolerância e racismo religioso.
Quais vereadores estavam envolvidos?
A controvérsia envolveu manifestações de Marquinho Dornelas e Sinval Dias durante a reunião de 2 de setembro.
Sinval Dias reconheceu que errou?
Sim. Posteriormente, Sinval reconheceu que falou sobre um assunto que não conhecia suficientemente e admitiu o emprego inadequado de palavras ao abordar Exu e Zé Pilintra.
Por que o desconhecimento dos vereadores virou parte da discussão?
Porque representantes eleitos utilizam uma tribuna institucional e participam de decisões que atingem diferentes grupos sociais. Por isso, a controvérsia levantou a questão sobre a responsabilidade de pesquisar e compreender um tema antes de emitir julgamentos públicos.
Houve mobilização contra as declarações?
Sim. Representantes da AMAD e do Compir utilizaram a Tribuna Popular, enquanto integrantes das religiões de matriz africana acompanharam a reunião. Também houve manifestações públicas e mobilização nas redes.
O caso envolve racismo religioso?
Representantes das entidades envolvidas classificaram as manifestações dessa forma. O conceito de racismo religioso destaca que a discriminação contra religiões de matriz africana também se relaciona à história de perseguição e estigmatização das culturas de origem africana.
O episódio chegou à disputa pela Presidência da Câmara?
A mobilização nas redes passou a defender uma futura Presidência da Câmara comprometida com o respeito a todas as religiões e contrária à normalização do preconceito. Uma das peças divulgadas faz essa associação expressamente.
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