Os arquivos da Comissão da Verdade de Minas Gerais (COVEMG) revelam um episódio de violência tão concentrado quanto brutal: a perseguição sistemática aos metalúrgicos de João Monlevade. Diferente da repressão fragmentada nas grandes cidades, a operação que se iniciou na cidade logo após o golpe de 1º de abril de 1964 promoveu uma limpeza política e sindical metódica e implacável. O alvo era claro: quebrar o Sindicato dos Metalúrgicos, que possuía uma forte tradição de lutas por melhores condições de trabalho, e desmobilizar qualquer resistência operária na Belgo Mineira, uma das maiores siderúrgicas do país e um pilar da economia nacional na época.
Um Padrão Chocante de Perseguição
A análise dos processos da COVEMG evidencia um padrão de perseguição chocante pela sua seletividade e intensidade. A Comissão documentou 67 trabalhadores como vítimas diretas da repressão. Desse total, 62 enfrentaram investigações formais em Inquéritos Policiais Militares (IPMs) apenas nesta localidade – um número que, proporcionalmente, supera a contagem de militantes torturados de diversas organizações de esquerda de atuação nacional. A singularidade de João Monlevade está na focalização. Enquanto em capitais como Belo Horizonte e Rio de Janeiro a violência era mais difusa, aqui ela atuou como um raio laser, atingindo o cerne da organização operária em um único lugar, em uma única fábrica, demonstrando uma estratégia premeditada de desarticulação do movimento sindical na sua base.
O Contexto: Um Sindicato Forte em uma Cidade Company Town
Para entender a brutalidade da repressão, é crucial compreender o contexto. João Monlevade era uma típica “company town”, onde a Belgo Mineira não era apenas a empregadora, mas controlava a infraestrutura urbana, o comércio, a habitação e os serviços. Segundo pesquisas acadêmicas, como as do professor Rodrigo Patto Sá Motta, esse controle totalitário da vida social tornava a empresa extremamente sensível a qualquer movimento que desafiasse seu poder. O Sindicato dos Metalúrgicos, sob a liderança de figuras como João Paulo Pires de Vasconcelos, havia conquistado importantes benefícios e representava uma ameaça ao controle absoluto da empresa. Portanto, o golpe de 1964 foi visto como uma oportunidade para esmagar essa oposição organizada.
A Estratégia do Terror Econômico e Físico
A estratégia repressiva combinava de forma calculada o terror econômico e físico. Operários eram forçados a pedir demissão sob a mira de metralhadoras, como detalhou o ex-presidente do sindicato, João Paulo Pires de Vasconcelos: “Os companheiros todos em pé com metralhadora nas costas iam entrando, um por um, dentro do escritório […] ‘Tá demitido, assina aqui’. Quem não assinava ia preso.” Imediatamente após a demissão, as famílias eram expulsas sumariamente das casas da empresa, ficando completamente desamparadas em uma cidade onde tudo pertencia à Belgo. Essa prática não apenas punia o trabalhador, mas também servia como um exemplo aterrorizante para o restante da comunidade.
Relatos Devastadores de Tortura e Violência
Os relatos de tortura compilados pela COVEMG são devastadores em seus detalhes. Antônio Crispim de Oliveira, por exemplo, sofreu com “choques elétricos”, “pau de arara”, “telefones”, “dança das latas”, privação de alimentos e fuzilamento simulado. Outra vítima, Virgílio Faustino Salomão, foi submetido a socos, agressões físicas variadas e a uma violência sexual extrema, com perfurações no pênis que lhe causaram grave infecção. Sua esposa, Tereza Salomão, testemunhou as sequelas: “Quando eu olhei para ele, comecei a chorar de pena de ver. Ele estava com um febrão, todo vomitado, todo sujo.” Esses métodos, comuns aos aparatos de repressão da ditadura, foram aplicados de forma concentrada contra os líderes e membros ativos do sindicato.
A Articulação Explícita entre Empresa e Regime
O relatório da COVEMG vai além e identifica uma articulação explícita e documental entre a empresa e o regime militar. Um documento de 30 de maio de 1964, assinado pelo tenente Amaro Zacarias Corgosinho – identificado como “elemento de ligação entre as autoridades militares e policiais” – lista operários demitidos com observações sobre suas ideologias políticas, funcionando efetivamente como uma lista de proscrição. Essa colaboração não foi acidental. Conforme registros históricos, na reunião do IPES-MG (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) em janeiro de 1964, que planejou o golpe em Minas, estavam presentes representantes de grandes empresas, como a Mannesmann, e Joseph Hein, então presidente da Belgo Mineira, evidenciando o apoio do setor empresarial ao movimento que derrubou o governo Goulart.
A Repressão que Persistiu na Abertura Política
A repressão em João Monlevade não foi um evento restrito aos primeiros anos da ditadura. Ela continuou a assombrar a cidade mesmo durante o processo de abertura política, no final dos anos 1970 e início dos anos 1980. Em 1980, num claro atentado à liberdade sindical que se reestruturava, a casa do sindicalista João Paulo Pires Vasconcelos foi invadida e incendiada. Este ato demonstrava que, mesmo com a “distensão”, as forças reacionárias locais e os interesses contrários ao sindicalismo autônomo permaneciam ativos e violentos.
Conclusão: Um Episódio Emblemático e uma Lição Histórica
João Monlevade pode não ter o maior número absoluto de vítimas do estado, mas possui o episódio mais concentrado e emblemático da repressão antissindical em Minas Gerais. Este caso revela com clareza ímpar como a ditadura civil-militar dependia não apenas do terror de Estado nos porões do DOPS, mas também da conivência ativa e da iniciativa do capital para esmagar a organização operária onde ela era mais forte e representava uma ameaça direta ao status quo: nos galpões das fábricas que moviam o país. A memória do que aconteceu em João Monlevade serve como um alerta permanente sobre os perigos da aliança entre poder econômico e autoritarismo contra os direitos fundamentais dos trabalhadores.
Fontes Consultadas:
ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO (APM). Fundo: Secretaria de Segurança Pública. Série: DOPS. Belo Horizonte, [s.d.].
BRASIL. Comissão Nacional da Verdade. Relatório: textos temáticos. Brasília: CNV, 2014. v. 1. Disponível em: http://cnv.memoriasreveladas.gov.br/. Acesso em: 4 fev. 2025.
CENTRO DE REFERÊNCIA E MEMÓRIA DO TRABALHADOR (CEREM). Depoimentos: coleção história oral. João Monlevade, [s.d.].
MINAS GERAIS. Comissão da Verdade em Minas Gerais. Relatório COVEMG. Belo Horizonte: COVEMG, 2017. Disponível em: https://www.acordacultura.org.br/relatorio-covemg. Acesso em: 4 fev. 2025.
MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As universidades e o regime militar: cultura política, marxismo e golpe de 1964. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2014.
MOTTA, Rodrigo Patto Sá. O golpe de 1964 e a ditadura empresarial-militar: versões e controvérsias. In: FREIRE, Américo; FERREIRA, Jorge (Org.). 1964: 50 anos depois. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014. p. 21-40.





