8 de agosto: João Monlevade celebra trabalhadores que enfrentaram repressão e fizeram história

Usina siderúrgica de João Monlevade fotografada por Viktor Macha
Usina siderúrgica de João Monlevade, cenário central da história industrial e operária do município. Foto: Viktor Macha / The Beauty of Steel Project.

Quarenta anos após o fim da Greve de 1986 em João Monlevade, documentos e pesquisas revelam perseguições, prisões, intervenção sindical e resistência que marcaram a trajetória dos trabalhadores da antiga Belgo-Mineira

JOÃO MONLEVADE (MG) — Neste sábado, 8 de agosto de 2026, completam-se exatamente 40 anos do encerramento da Greve de 1986 em João Monlevade, conhecida como Greve de 23 Dias e considerada uma das maiores mobilizações operárias da história do município. Desde 2023, a data também integra oficialmente o calendário municipal como Dia da Luta Operária de João Monlevade, instituído para preservar a memória, reconhecer a resistência e homenagear especialmente os metalúrgicos da antiga Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira. No entanto, limitar essa história aos 23 dias transcorridos entre 16 de julho e 8 de agosto de 1986 significaria contar apenas uma parte de uma trajetória muito mais longa.

A Greve de 1986 em João Monlevade foi o ponto culminante de uma trajetória de organização e resistência construída ao longo de décadas. Antes dela, trabalhadores da Belgo-Mineira enfrentaram perseguições políticas, intervenção sindical, prisões, demissões coercitivas e outras graves violações de direitos humanos durante a ditadura. Décadas depois, pesquisas históricas e investigações institucionais revelaram novos documentos e evidências sobre a dimensão desse processo. Por isso, neste 8 de agosto, talvez a expressão mais adequada não seja simplesmente lembrar. É não esquecer.

Registro histórico das mobilizações dos trabalhadores da antiga Belgo-Mineira, em João Monlevade. Foto: Acervo do Sindicato dos Metalúrgicos de João Monlevade.

Antes de 1986, vieram 1962, 1963 e 1964

A história da resistência operária em João Monlevade antecede a ditadura. Trabalhadores da Belgo-Mineira realizaram greves bem-sucedidas em 1962 e 1963. Entretanto, depois do golpe de 1964, a situação mudou drasticamente.

Pesquisa coordenada pela historiadora Marina Camisasca registra que uma tropa de policiais militares de Governador Valadares foi enviada para João Monlevade para reprimir uma eventual resistência dos operários. Segundo a investigação histórica, a tropa havia sido requisitada por Amaro Zacarias Corgosinho, chefe de segurança da Belgo-Mineira que, posteriormente, tornou-se interventor do Sindicato dos Metalúrgicos de João Monlevade durante a ditadura.

Dessa forma, a repressão política atingiu diretamente uma das instituições fundamentais para a organização dos trabalhadores: o próprio sindicato. Os episódios foram recuperados em investigação publicada pela Agência Pública sobre a atuação da Belgo-Mineira durante a ditadura.

103 trabalhadores foram perseguidos somente em 1964

A dimensão desse processo aparece com maior clareza nos números. Pesquisa histórica coordenada por Marina Camisasca identificou 103 trabalhadores da Belgo-Mineira em João Monlevade que sofreram algum tipo de perseguição somente em 1964. O trabalho utilizou, entre suas fontes, o relatório da Comissão da Verdade em Minas Gerais.

Entre esses casos estavam 74 operários que possuíam estabilidade no emprego e teriam sido coagidos a pedir demissão. Portanto, perder o emprego naquele contexto significava muito mais do que deixar de receber um salário.

Naquele período, João Monlevade apresentava características marcantes de uma cidade estruturada em torno da companhia. A empresa estava relacionada não apenas ao trabalho, mas também à moradia e a diferentes serviços utilizados pelas famílias. Consequentemente, a perda do vínculo empregatício poderia comprometer praticamente toda a estrutura de vida do trabalhador e de seus familiares.

Prisões, tortura, violência sexual e medo marcaram a repressão

Os documentos revelados nas últimas décadas tornam esse capítulo ainda mais grave. A pesquisa sobre a atuação da Belgo-Mineira durante a ditadura registrou casos de prisões, torturas e violência sexual relacionados à repressão política.

Segundo a Agência Pública, o levantamento encontrou quatro casos de abuso sexual contra mulheres — três filhas de operários e a esposa de um trabalhador —, além do relato de abuso sexual sofrido por um operário preso.

Um dos casos documentados envolve uma adolescente de 13 anos, que posteriormente relatou ter sido vítima de violência sexual enquanto seu pai estava preso.

Além disso, as prisões ocorridas em abril de 1964 atingiram trabalhadores em suas casas e dentro da fábrica. Parte deles foi levada para a cadeia local ou para estruturas da repressão política em Belo Horizonte.

Décadas depois, ao pesquisar aquele período, Marina Camisasca sintetizou o impacto deixado na comunidade: “O medo dominou Monlevade”. A frase ajuda a compreender que a repressão não atingiu somente indivíduos. Seus efeitos alcançaram famílias inteiras e deixaram marcas na memória coletiva da cidade.

MPF abriu investigação sobre a atuação da Belgo-Mineira

Essa história também passou a ser objeto de investigação institucional. Em 2022, o Ministério Público Federal abriu inquérito civil para investigar a atuação da antiga Belgo-Mineira durante a ditadura, a partir das conclusões da Comissão da Verdade em Minas Gerais.

A apuração envolve alegações de apoio político e financeiro ao regime e de colaboração com a repressão exercida contra trabalhadores, particularmente no contexto do Sindicato dos Metalúrgicos de João Monlevade.

Mais recentemente, o caso ganhou novo desdobramento. Em maio de 2026, a Agência Pública informou que a ArcelorMittal, atual controladora das operações que pertenceram à Belgo-Mineira, estava em tratativas com o MPF e o Ministério Público do Trabalho sobre um possível Termo de Ajustamento de Conduta relacionado às violações históricas investigadas.

Assim, 62 anos depois do golpe e 40 anos após a Greve de 1986 em João Monlevade, os acontecimentos relacionados à repressão dos trabalhadores ainda produzem desdobramentos institucionais. A ArcelorMittal, por sua vez, declarou acompanhar as investigações referentes aos acontecimentos ocorridos na antiga Belgo-Mineira, anteriores à aquisição pelo atual grupo. A companhia também afirma possuir uma política de direitos humanos e ter prestado informações às apurações.

Trabalhadores reconstruíram a organização sindical

Apesar da repressão, a organização operária não desapareceu. Nas décadas seguintes, reivindicações relacionadas a salários, jornadas, turnos, condições de trabalho e representação sindical voltaram gradualmente ao centro das mobilizações.

Ao mesmo tempo, o Brasil vivia um processo mais amplo de reorganização dos trabalhadores. Greves e movimentos sindicais voltavam a ganhar força em diferentes regiões industriais do país.

Nesse contexto, João Monlevade também reconstruía sua capacidade de mobilização. Portanto, quando os trabalhadores entraram em greve em 1986, aquela paralisação não surgiu repentinamente.

A Greve de 1986 em João Monlevade foi resultado de uma longa experiência de organização, conflitos, repressão e reconstrução sindical. Essa trajetória ajuda a compreender por que o movimento iniciado em julho daquele ano alcançaria uma dimensão histórica para os trabalhadores e para a própria cidade.

16 de julho de 1986: começa a ocupação

Às 15 horas de 16 de julho de 1986, trabalhadores da usina de João Monlevade decidiram paralisar as atividades diante do não atendimento de suas reivindicações. Diferentemente de uma greve convencional, entretanto, eles permaneceram dentro da siderúrgica. Começava, assim, a Greve de 23 Dias.

Segundo o registro histórico do Sindicato dos Metalúrgicos de João Monlevade, os trabalhadores permaneceram no interior da unidade até a manhã de 8 de agosto. A entidade identifica o movimento como a mais longa greve dos metalúrgicos da cidade até aquele momento. O relato pode ser consultado no Sindmon-Metal — Dia da Luta Operária de João Monlevade.

Durante aqueles dias, a fábrica deixou de ser apenas o lugar onde se produzia aço. Transformou-se também em espaço de mobilização, convivência e resistência, no qual os trabalhadores afirmavam coletivamente sua capacidade de organização.

A Greve de 1986 atravessou os portões da usina

Uma paralisação de 23 dias em uma cidade historicamente estruturada ao redor de uma grande siderúrgica dificilmente permaneceria restrita ao interior da fábrica. Por isso, a Greve de 1986 em João Monlevade alcançou famílias, bairros, comércio, instituições e o cotidiano do município.

Pais, mães, esposas, filhos, parentes e moradores acompanharam aqueles dias de tensão. Dessa forma, a história da greve não pertence somente aos trabalhadores que permaneceram dentro da usina. Ela também pertence à cidade.

Essa dimensão coletiva ajuda a explicar por que, quatro décadas depois, o 8 de agosto se tornou oficialmente uma data dedicada à memória da luta dos trabalhadores de João Monlevade.

Eles não “derrotaram o golpe”, mas venceram o medo imposto aos trabalhadores

Há uma distinção histórica importante. Não seria correto afirmar literalmente que os metalúrgicos de João Monlevade “derrotaram o golpe militar de 1964”. A ditadura brasileira terminou por meio de um amplo e complexo processo nacional de redemocratização, que envolveu trabalhadores, movimentos sociais, organizações políticas, entidades civis e milhões de brasileiros.

Entretanto, existe outro sentido histórico e simbólico nessa afirmação. Os trabalhadores de João Monlevade enfrentaram as consequências de uma estrutura repressiva instalada depois de 1964. O sindicato sofreu intervenção, trabalhadores foram perseguidos, famílias foram atingidas e houve demissões coercitivas e graves denúncias de violações de direitos humanos.

Mesmo assim, a organização coletiva sobreviveu.

Décadas depois, os trabalhadores voltaram a ocupar uma fábrica, sustentaram uma greve durante 23 dias e afirmaram publicamente sua capacidade de organização. Nesse sentido histórico e simbólico, eles venceram o medo.

Além disso, recuperar o direito de organizar-se, reunir-se, reivindicar melhores condições de trabalho e fazer greve também fazia parte da reconstrução democrática do país.

Quarenta anos depois, as investigações continuam

O aniversário de 40 anos ganha uma dimensão ainda maior porque essa história não está encerrada. Em 2026, investigações e negociações relacionadas à responsabilidade empresarial por violações cometidas durante a ditadura continuam produzindo desdobramentos.

Em maio deste ano, a Agência Pública informou que ArcelorMittal e Vallourec negociavam com o Ministério Público Federal (MPF) e o Ministério Público do Trabalho (MPT) possíveis medidas de reparação relacionadas às antigas Belgo-Mineira e Mannesmann.

O desdobramento está detalhado na reportagem da Agência Pública sobre as negociações envolvendo as antigas Belgo-Mineira e Mannesmann.

Entre as propostas apresentadas no contexto da pesquisa histórica sobre a Belgo-Mineira está uma iniciativa diretamente relacionada a João Monlevade: a criação de um Centro de Memória dos Trabalhadores no antigo prédio do sindicato.

Portanto, discutir 1964 e a Greve de 1986 em João Monlevade não significa apenas olhar para trás. Significa também perguntar como a cidade pretende preservar e transmitir essa memória às próximas gerações.

8 de agosto tornou-se oficialmente o Dia da Luta Operária

A Lei Municipal nº 2.601, sancionada em 28 de dezembro de 2023, instituiu o dia 8 de agosto como Dia da Luta Operária de João Monlevade.

A legislação determina que a data preserve, honre e homenageie os trabalhadores do município, especialmente os metalúrgicos da antiga Belgo-Mineira envolvidos na Greve de 23 Dias. Além disso, estabelece entre seus objetivos estimular o conhecimento da história local, valorizar os direitos trabalhistas e promover ações voltadas aos estudantes.

O texto integral pode ser consultado na Lei Municipal nº 2.601/2023 — Prefeitura de João Monlevade.

Há, portanto, uma responsabilidade que ultrapassa as famílias dos antigos grevistas. A memória da luta operária passou oficialmente a integrar a história que João Monlevade decidiu preservar e transmitir às novas gerações.

Hoje não é apenas um dia para lembrar. É um dia para não esquecer

Quarenta anos são suficientes para transformar acontecimentos em fotografias antigas, documentos de arquivo e histórias transmitidas entre gerações. No entanto, algumas histórias não podem permanecer apenas nos arquivos.

Não podemos esquecer os trabalhadores perseguidos, aqueles que perderam seus empregos e as famílias atingidas pela repressão. Também não podemos esquecer as mulheres que denunciaram violência, os trabalhadores que reconstruíram sua organização sindical e aqueles que, em 1986, entraram na usina para trabalhar e decidiram permanecer ali para lutar.

Da mesma forma, fazem parte dessa história as famílias que permaneceram do lado de fora dos portões acompanhando os 23 dias de mobilização.

Para muitos moradores de João Monlevade, essa não é uma história distante. São histórias de pais, mães, avós, vizinhos e companheiros de trabalho.

Por isso, neste 8 de agosto de 2026, o Dia da Luta Operária não deve ser compreendido apenas como uma comemoração do passado. A data também representa uma oportunidade para transmitir às novas gerações a memória das lutas que ajudaram a construir a história social e trabalhista do município.

Há 40 anos, aqueles trabalhadores encerravam uma greve histórica. Muito antes disso, outros trabalhadores haviam enfrentado perseguições, prisões, demissões e medo. Ainda assim, continuaram se organizando.

Viva os trabalhadores e as trabalhadoras de João Monlevade.

Viva a memória daqueles que enfrentaram a repressão e defenderam seus direitos.

Viva a memória das famílias que atravessaram aqueles tempos.

8 de agosto: não apenas para lembrar. Para não esquecer.

📊 Em números

1962 e 1963 — anos de greves de trabalhadores da Belgo-Mineira anteriores ao golpe militar.

103 trabalhadores — empregados da Belgo-Mineira identificados pela pesquisa como vítimas de algum tipo de perseguição em João Monlevade somente em 1964.

74 trabalhadores estáveis — operários que, segundo os registros históricos, foram coagidos a pedir demissão.

16 de julho de 1986, às 15h — início da Greve de 23 Dias.

23 dias — duração da mobilização histórica.

8 de agosto de 1986 — encerramento da greve.

8 de agosto — Dia da Luta Operária de João Monlevade, instituído pela Lei Municipal nº 2.601/2023.

40 anos — período completado neste sábado, 8 de agosto de 2026, desde o encerramento da greve.

❓ Perguntas frequentes

Por que 8 de agosto é o Dia da Luta Operária de João Monlevade?

A data marca o encerramento da Greve de 23 Dias, em 8 de agosto de 1986. Em 2023, a Lei Municipal nº 2.601 incluiu oficialmente a homenagem no calendário do município.

Quanto tempo durou a Greve de 1986?

A mobilização começou às 15h de 16 de julho e terminou na manhã de 8 de agosto de 1986, totalizando 23 dias.

A repressão aos trabalhadores começou em 1986?

Não. Pesquisas históricas documentam perseguições contra trabalhadores da Belgo-Mineira especialmente após o golpe de 1964, incluindo prisões, intervenção sindical e demissões coercitivas.

Quantos trabalhadores foram identificados como perseguidos em 1964?

A pesquisa coordenada pela historiadora Marina Camisasca identificou 103 trabalhadores da Belgo-Mineira em João Monlevade que sofreram algum tipo de perseguição naquele ano.

As investigações sobre esse período já terminaram?

Não. Os acontecimentos relacionados à atuação empresarial durante a ditadura continuam produzindo desdobramentos institucionais, inclusive discussões envolvendo MPF, MPT e atuais controladoras de antigas empresas.

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Nota editorial

Esta reportagem utiliza documentos e pesquisas históricas, além de informações provenientes de investigações ainda em curso. Por isso, o O Fato News distingue fatos documentados, relatos de vítimas, conclusões de pesquisas e responsabilidades ainda submetidas à apuração institucional.

A atual ArcelorMittal afirma que os acontecimentos investigados são anteriores à aquisição da antiga Belgo-Mineira pelo grupo e declara colaborar com as apurações.

Referência da imagem

MACHA, Viktor. The Beauty of Steel Project. Registro fotográfico da usina siderúrgica de João Monlevade, Minas Gerais, Brasil. Acervo fotográfico de Viktor Macha. Imagem reproduzida com autorização do autor.