Função Paterna, Totem e Tabu: A Psicanálise e o Brasil Pós-Condenação de Jair Bolsonaro

A condenação de Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado representa um marco histórico e jurídico no Brasil. No entanto, para além dos aspectos jurídicos, esse episódio revela tensões profundas na sociedade brasileira, evidenciando como a psicanálise pode lançar luz sobre o fenômeno político atual.

Para melhor compreender esta questão vamos analisar como a crise da autoridade simbólica, somada ao ressentimento político, tem levado inclusive pessoas instruídas e aparentemente pacíficas a aderirem, consciente ou inconscientemente, a discursos de transgressão e destruição.

 A Crise da Autoridade no Brasil

A “função paterna”, conceito psicanalítico que introduz o sujeito na ordem da lei e da cultura, está em crise no Brasil. Quando essa função falha ou é rejeitada, cresce a sensação de que “ninguém manda em nada”, criando um vazio simbólico. Bolsonaro se apresentou como uma espécie de “pai da nação”, prometendo restaurar valores e punir inimigos. Sua condenação e inelegibilidade funcionam como uma “castração simbólica” para seus seguidores, que reagem com ressentimento e, em alguns casos, com violência verbal e física.

 A Morte do Pai e a Fantasia de Transgressão

Sigmund Freud, em Totem e Tabu, descreve o mito do assassinato do pai da horda primitiva, ato que funda a lei, mas também gera culpa e desejo de retorno à onipotência perdida. A condenação de Bolsonaro pode ser lida como o “assassinato simbólico” do pai totêmico, reativando o desejo de vingança e destruição contra o sistema que o puniu — Judiciário, imprensa, instituições democráticas — alimentando o apelo por uma nova ordem sem limites.

 Críticas ao Voto do Ministro do STF, Luiz Fux

O voto do ministro Luiz Fux na Ação Penal 2668, que absolveu Bolsonaro e outros réus, gerou críticas significativas. O professor de direito constitucional Pedro Estevam Serrano afirmou que o voto de Fux esteve “desconectado dos autos” e desconsiderou o conceito de “tentativa de golpe de Estado”. Segundo Serrano, “basta ler o relatório da Polícia Federal e ver as provas que foram anexadas ao processo. São abundantes e muito intensas” ([Agência Brasil][1]).

Além disso, o ministro Gilmar Mendes, decano do STF, criticou o voto de Fux, afirmando que estava “prenhe de incoerências”. Mendes questionou a lógica de Fux ao condenar Mauro Cid e Walter Braga Netto, mas absolver Bolsonaro, destacando que “se não houve golpe, não deveria ter havido condenação” ([Brasil de Fato][2]).

 “Eu Só Compartilhei”: A Negação da Responsabilidade

Uma das falas recorrentes entre simpatizantes de atos extremistas é: “eu só compartilhei”. Essa frase exemplifica a negação da responsabilidade, conceito psicanalítico que reconhece e ao mesmo tempo recusa a gravidade do ato. Essa lógica também aparece na tentativa de minimizar o 8 de janeiro, reduzindo-o a uma manifestação pacífica com “velhinhos com Bíblia na mão e um piquenique”. Essa negação impede a elaboração simbólica da perda e mantém a repetição do ato como possibilidade real.

 Intelectuais e Pessoas Instruídas na Onda Radical

A adesão de pessoas instruídas e aparentemente pacíficas à radicalização é um fenômeno preocupante. A psicanálise nos lembra que o saber não imuniza contra o inconsciente. Mesmo indivíduos cultos podem aderir a narrativas conspiratórias ou apelos violentos quando estas oferecem uma fantasia de completude ou um inimigo comum a ser combatido. Essa adesão fornece legitimação simbólica aos discursos extremistas, que passam a parecer “racionais” e “defensáveis”, diluindo sua dimensão de ato antidemocrático.

 O Desafio do Brasil

O fenômeno bolsonarista não é mera irracionalidade coletiva: ele se enraíza em estruturas psíquicas universais. A psicanálise mostra que a crise da função paterna, a dificuldade de aceitar limites e a busca pelo gozo perdido alimentam movimentos que rejeitam a lei e flertam com a violência. A negação de responsabilidade e a denegação do caráter golpista de atos como o de 8 de janeiro impedem a elaboração simbólica da perda e mantêm a repetição do ato como possibilidade real.

O desafio para o Brasil é restaurar a função paterna simbólica — isto é, fortalecer a lei e as instituições de modo que o sujeito coletivo possa elaborar o luto político, reconhecer os limites impostos pela democracia e superar a lógica do tudo ou nada que hoje ameaça a coesão social.

Referências

FREUD, Sigmund. Totem e tabu. Porto Alegre: L&PM, 2012.

FREUD, Sigmund. O eu e o id e outros trabalhos (1923-1925). Rio de Janeiro: Imago, 2010.

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 5: As formações do inconsciente. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999.

AGÊNCIA BRASIL. Fux foi contraditório e seletivo nas provas do golpe, dizem juristas. Agência Brasil, 15 set. 2025. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/justica/noticia/2025-09/fux-foi-contraditorio-e-seletivo-nas-provas-do-golpe-dizem-juristas?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 16 set. 2025.

BRASIL DE FATO. Gilmar Mendes critica voto de Fux na ação do golpe. Brasil de Fato, 15 set. 2025. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2025/09/15/gilmar-critica-voto-de-fux-na-acao-do-golpe-prenhe-de-incoerencias/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 16 set. 2025.