A Cena Educacional Mineira em Debate: As Escolhas de João Monlevade e a Crise Salarial Docente

A capitã da PM Martha Renata largou a profissão de professora para se dedicar a Segurança Pública (Foto: Quésia Melo/G1)
A capitã da PM Martha Renata largou a profissão de professora para se dedicar a Segurança Pública (Foto: Quésia Melo/G1)

A recente adesão de três das quatro escolas estaduais de João Monlevade ao modelo cívico-militar reacende um debate que ultrapassa o contexto local. A discussão sobre gestão escolar contrasta com o verdadeiro entrave à qualidade do ensino e e evidencia uma contradição estrutural na educação mineira.

Embora o debate sobre modelos de gestão escolar ganhe destaque, permanece negligenciada a desvalorização salarial do magistério. Tal cenário torna-se ainda mais evidente quando se observa a disparidade em relação às remunerações das forças de segurança pública. A disparidade salarial entre professores e forças de segurança pública expõe uma escolha política clara: investir na repressão em detrimento da educação.

Comparação Salarial entre Professores e Policiais Militares de Minas Gerais

Em Minas Gerais, a disparidade entre os salários de professores da rede estadual e de policiais militares é alarmante. Um professor iniciante (Grau I) recebe R$ 2.920,78, enquanto um soldado da PM começa ganhando R$ 5.332,60 — uma diferença de 82,6%. Com a progressão na carreira, a desigualdade aumenta: um professor com doutorado (Grau V, Nível P) recebe R$ 6.042,32, valor inferior ao de um 3º sargento (R$ 7.120,70) e menos da metade do salário de um major (R$ 16.503,74).

Essa defasagem salarial independe do modelo escolar adotado. As escolas cívico-militares de João Monlevade, por exemplo, não alteram a realidade financeira dos docentes, apenas transferem a gestão para militares. Enquanto isso, o piso nacional do magistério foi reajustado em 2025 para R$ 4.867,77, ainda inferior ao vencimento de um cabo da PM mineira, que recebe R$ 6.218,40.

Não se trata de desmerecer os militares ou questionar a legitimidade de seus vencimentos. Os números demonstram, porém, que o problema está na negligência histórica com a valorização docente. Se o objetivo é qualificar a educação, é preciso investir em salários justos, infraestrutura e formação continuada — e não apenas trocar o modelo de gestão. Sem essas medidas, qualquer reforma será superficial.

Experiências internacionais mostram que os sistemas educacionais mais exitosos têm como base a valorização dos professores. No entanto, em Minas Gerais, um docente com mestrado ainda recebe menos que um cabo da PM (R$ 5.359,04 contra R$ 6.171,73), comprometendo qualquer tentativa de melhoria, seja qual for o modelo adotado.

O debate em João Monlevade deveria, portanto, ir além da escolha de modelo escolar e encarar a verdadeira questão: como garantir qualidade no ensino se os educadores recebem salários incompatíveis com sua formação e relevância social? A solução não está na militarização, confessionalização ou laicização das escolas, mas na equiparação salarial com outras carreiras públicas de igual importância.

A Lei nº 5.692/71 e o Debate sobre Militarização: Entre a História e os Fatos

A polarização entre críticos e defensores das escolas cívico-militares obscurece o núcleo da crise educacional. A experiência da Lei nº 5.692/71, implantada durante o regime pós-1964, ilustra essa complexidade: o modelo tecnicista respondia à necessidade de modernização conservadora, articulando formação profissional ao mercado industrial emergente. Contudo, ampliando o acesso ao ensino médio, também reproduzia exclusões sociais com currículos distantes das realidades locais e sem políticas efetivas de permanência estudantil. A evasão e a repetência daquele período não foram causadas unicamente pela militarização, mas pela soma de reformas verticais e condições precárias.

O atual debate repete esse reducionismo. De um lado, há quem culpe a militarização por todos os males educacionais; de outro, os que a veem como solução mágica para os problemas de gestão. Ambos ignoram a questão central: a estrutura desigual de financiamento e a histórica desvalorização da docência.

A diferença entre os salários dos professores (Lei nº 25.245/2025) e dos militares (Lei nº 24.838/2024) não é apenas numérica — ela explicita uma hierarquia de prioridades do Estado. O fato de um professor doutor receber menos que um militar subalterno evidencia o lugar secundário que a educação ocupa nas políticas públicas brasileiras. As legislações que regem esses salários refletem, mais do que normas, as verdadeiras escolhas do país.

Superar esse cenário exige mais do que a troca de modelos escolares. É preciso reconhecer que toda política educacional é fruto de correlações de força. Não se trata de idealizar ou demonizar os modelos militarizados, mas de buscar soluções que combinem qualidade pedagógica, valorização profissional e inclusão social — elementos sistematicamente negligenciados.

Conclusão: Modelos Escolares e o Desafio Estrutural

Cívico-militares, laicas ou confessionais — nenhum modelo escolar será eficaz enquanto não enfrentarmos o problema estrutural da desvalorização docente. As escolas cívico-militares podem oferecer disciplina; as laicas, pluralismo; as confessionais, valores. Mas nenhuma dessas características compensa a ausência de políticas salariais que tornem a carreira docente atrativa. Quando um professor com doutorado ganha menos que um militar subalterno, há algo profundamente errado.

Em João Monlevade, como em todo o Brasil, a qualidade da educação não será definida pelo modelo de gestão, mas pela disposição política de oferecer condições dignas de trabalho e remuneração aos educadores. Enquanto essa equação fundamental não for resolvida, estaremos apenas variando a forma de administrar a precariedade — e não construindo uma educação transformadora.

Elizeu Assis – Jornalista 0018323/MG – 12 de julho de 2025

Leia –https://g1.globo.com/ac/acre/noticia/2015/10/no-ac-professora-troca-sala-de-aula-para-seguir-carreira-militar.html