Tarifa Zero aos domingos: Câmara pretende ampliar subsídio à Enscon, mas modelo de transporte de João Monlevade exige transparência

Tarifa Zero aos domingos em João Monlevade
Proposta de ampliar a Tarifa Zero aos domingos reacende o debate sobre financiamento, fiscalização e qualidade do transporte coletivo em João Monlevade.

Dados de 2024 mostram milhões de reais destinados ao transporte coletivo; proposta de ampliar a gratuidade para os domingos reacende debate sobre custos, fiscalização, qualidade do serviço e necessidade de uma política efetiva de Tarifa Zero em João Monlevade

A proposta de ampliar a Tarifa Zero aos domingos em João Monlevade recoloca no centro do debate o financiamento e a qualidade do transporte coletivo municipal. Em 2024, a Prefeitura destinou R$ 12.541.333,54 ao transporte público. Desse total, R$ 4.478.515,30 foram repassados à empresa Enscon para a operação das linhas 42 (Circular/Centro) e 43 (Santa Cecília/Rodoviária), atendidas pelo modelo denominado “Tarifa Zero”.

Entretanto, antes de ampliar o benefício para novos dias da semana, os números disponíveis indicam a necessidade de avaliar detalhadamente os custos, a demanda, a quilometragem percorrida e os resultados entregues à população. Além disso, a discussão precisa considerar mecanismos de fiscalização e transparência capazes de demonstrar como os recursos públicos estão sendo utilizados.

Dados levantam dúvidas sobre o custo da operação

Com uma quilometragem anual de 135.668 quilômetros registrada nessas linhas e repasses de R$ 4.478.515,30, a relação entre os dois valores corresponde a aproximadamente R$ 33,01 por quilômetro.

Para efeito de comparação, a Resolução ANTT nº 5.867/2020, posteriormente atualizada, estabelece parâmetros para pisos mínimos do transporte rodoviário de cargas. Essa comparação, contudo, deve ser feita com cautela: transporte urbano de passageiros e transporte rodoviário de cargas possuem estruturas operacionais, custos e metodologias distintas.

Portanto, o valor não permite, isoladamente, concluir que exista sobrepreço. Por outro lado, a diferença reforça a necessidade de acesso às planilhas de custos do transporte coletivo municipal para verificar quanto efetivamente custa cada quilômetro operado em João Monlevade.

Uma auditoria técnica independente permitiria comparar combustível, pessoal, manutenção, frota, depreciação, quilômetros percorridos e demais componentes da operação.

Modelo adotado não corresponde à Tarifa Zero universal

Apesar da denominação utilizada no município, o sistema existente em João Monlevade não corresponde ao conceito de Tarifa Zero universal, no qual todos os passageiros utilizam toda a rede municipal gratuitamente.

Atualmente, o poder público financia a gratuidade em linhas específicas. Por isso, é importante distinguir esse modelo de experiências adotadas por municípios que eliminaram a cobrança em todo o sistema.

Essa diferença ganha relevância porque uma política pública de Tarifa Zero envolve não apenas o pagamento das passagens pelo município, mas também planejamento da rede, fontes permanentes de financiamento, metas de qualidade, controle dos custos e acompanhamento da demanda.

Dados de passageiros também precisam ser esclarecidos

Outro ponto que merece análise envolve a quantidade de passageiros transportados.

Tomando como referência o repasse de R$ 4.478.515,30 e o valor unitário de R$ 4 por passagem, chega-se ao equivalente financeiro de aproximadamente 1.119.629 passagens em 2024, ou média de 93.302 por mês.

Entretanto, relacionar diretamente esse resultado ao número de passageiros efetivamente transportados exige cautela. Para determinar a ocupação média dos ônibus, seria necessário conhecer com precisão o número de viagens realizadas, a metodologia usada para calcular os repasses, a capacidade de cada veículo e os registros oficiais de embarques.

Assim, eventuais divergências entre quilometragem, viagens, passageiros e valores pagos precisam ser esclarecidas a partir dos dados operacionais completos.

Tarifa Zero aos domingos amplia necessidade de fiscalização

Em 2025, a discussão ganhou um novo capítulo com a proposta de Tarifa Zero aos domingos. A iniciativa prevê ampliar a gratuidade, enquanto o Executivo avalia sua viabilidade.

Para o passageiro, não pagar a tarifa aos domingos representa uma redução direta no custo dos deslocamentos. A medida pode, inclusive, ampliar o acesso ao comércio, lazer, serviços e atividades culturais.

Porém, a ampliação também produz impacto financeiro. Dessa forma, antes da implementação, é fundamental saber quanto custará a medida, qual será o aumento esperado da demanda, quantos veículos serão necessários e de onde sairão os recursos.

Também é necessário definir indicadores que permitam avaliar posteriormente se a ampliação produziu os resultados esperados.

Estudos anteriores podem contribuir para a decisão

O debate sobre transporte gratuito em João Monlevade não começou agora.

Desde 2022, o Movimento Monlevade Sem Catracas – Tarifa Zero apresenta propostas, diagnósticos e alternativas para discutir um modelo de transporte gratuito baseado em financiamento público e controle social.

Além disso, a própria Prefeitura contratou uma consultoria, por valor superior a R$ 250 mil, para estudar o sistema de transporte coletivo e propor melhorias.

Por isso, qualquer decisão sobre a expansão da gratuidade deveria considerar também as conclusões desse estudo. O acesso público ao diagnóstico permitiria conhecer problemas identificados, projeções de demanda e alternativas propostas para reorganizar o serviço.

Milhões de reais já financiam o transporte coletivo

Os números mostram que o transporte público de João Monlevade já depende significativamente de recursos municipais.

Em 2024, foram destinados R$ 12.541.333,54 ao transporte coletivo, enquanto R$ 4.478.515,30 foram direcionados especificamente à operação das linhas 42 e 43 dentro do modelo de gratuidade.

Portanto, o debate não pode ficar restrito à existência ou não de subsídio. A questão central é saber quanto custa o sistema, como os valores são calculados, quais resultados são exigidos da operadora e qual qualidade do serviço chega aos passageiros.

Usuários continuam apresentando reclamações relacionadas a lotação, horários, disponibilidade de veículos e cobertura das linhas. Assim, o financiamento público precisa estar associado a parâmetros mensuráveis de desempenho.

Transparência deve acompanhar os subsídios

A Câmara Municipal exerce papel importante nesse processo. Ao analisar novos subsídios ou a ampliação da Tarifa Zero aos domingos, o Legislativo pode exigir informações detalhadas sobre custos e desempenho antes de autorizar novas despesas.

Entre os documentos relevantes estão planilhas de custos, quilômetros efetivamente percorridos, quantidade de viagens, passageiros transportados, composição da frota, horários cumpridos e critérios utilizados para calcular os pagamentos.

Além disso, metas objetivas de pontualidade, frequência, lotação e qualidade permitiriam avaliar se os recursos públicos estão produzindo melhorias efetivas.

A fiscalização não deve ocorrer somente quando novos repasses são discutidos. Pelo contrário, precisa fazer parte permanentemente da gestão do contrato.

João Monlevade precisa discutir qual modelo deseja

A proposta de ampliar a gratuidade aos domingos pode representar benefício para parte da população. Entretanto, ela também oferece uma oportunidade para discutir de maneira mais ampla o futuro do transporte coletivo.

João Monlevade precisa decidir se continuará ampliando gradualmente subsídios para determinadas linhas ou se pretende construir uma política municipal de Tarifa Zero mais abrangente.

Nesse debate, pelo menos quatro medidas merecem atenção: auditoria dos contratos e divulgação dos dados financeiros; revisão técnica do modelo de subsídio; utilização dos estudos já produzidos sobre o sistema; e definição de mecanismos permanentes de fiscalização pelo Executivo, Legislativo e sociedade.

Mais do que decidir se haverá Tarifa Zero aos domingos, o município precisa estabelecer qual transporte público pretende oferecer nos próximos anos.

A gratuidade pode ser uma ferramenta de inclusão e mobilidade. Contudo, para funcionar de forma sustentável, precisa caminhar ao lado de planejamento, transparência, qualidade do serviço e responsabilidade no uso dos recursos públicos.

Principais dúvidas sobre a Tarifa Zero aos domingos

João Monlevade possui Tarifa Zero em todo o transporte coletivo?
Não. A gratuidade existente alcança linhas específicas e, portanto, não corresponde a um sistema universal de Tarifa Zero em toda a rede municipal.

O que significa a proposta de Tarifa Zero aos domingos?
A proposta pretende ampliar a gratuidade para viagens realizadas aos domingos. Entretanto, sua implementação exige definição dos custos, fontes de financiamento e condições operacionais.

Quanto João Monlevade destinou ao transporte coletivo em 2024?
Segundo os dados utilizados nesta reportagem, o município destinou R$ 12.541.333,54 ao transporte coletivo em 2024.

Quanto foi repassado à Enscon para as linhas 42 e 43?
O valor informado é de R$ 4.478.515,30 em 2024 para a operação das duas linhas atendidas pelo modelo denominado Tarifa Zero.

Por que é necessária maior transparência?
Porque recursos públicos financiam parte significativa da operação. Assim, dados sobre custos, passageiros, quilometragem, frota e desempenho são necessários para avaliar a eficiência dos gastos e a qualidade do serviço.

Uma Tarifa Zero universal seria possível em João Monlevade?
A viabilidade depende de estudos sobre custos, demanda, desenho da rede e fontes permanentes de financiamento. Experiências de outros municípios mostram diferentes modelos, mas a implantação local exige planejamento específico.

📚 Referências

AGÊNCIA NACIONAL DE TRANSPORTES TERRESTRES (ANTT). Resolução nº 5.867, de 14 de janeiro de 2020. Estabelece metodologia e coeficientes dos pisos mínimos de frete.

AGÊNCIA NACIONAL DE TRANSPORTES TERRESTRES (ANTT). Calculadora de frete – Transporte Rodoviário de Cargas.

CÂMARA MUNICIPAL DE JOÃO MONLEVADE. Atas de reuniões e projetos legislativos.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Cidades – João Monlevade (MG).

MOVIMENTO MONLEVADE SEM CATRACAS. Propostas e relatórios sobre Tarifa Zero.

OBSERVATÓRIO DAS METRÓPOLES. Estudos e experiências sobre Tarifa Zero no Brasil.

PORTAL DA TRANSPARÊNCIA DE JOÃO MONLEVADE. Despesas com transporte público e contratos com concessionárias.

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