Região reúne 17 municípios, concentra mais de 312 mil eleitores e apresenta pelo menos 15 nomes ligados ao território na disputa por vagas na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados
O Médio Piracicaba chega às Eleições 2026 com um patrimônio político que ajuda a dimensionar a importância da região na disputa por vagas na Assembleia Legislativa de Minas Gerais e na Câmara dos Deputados: mais de 312 mil eleitores distribuídos por 17 municípios.
É um contingente capaz de despertar o interesse de candidatos de praticamente todas as regiões de Minas Gerais. Ao mesmo tempo, os números alimentam uma discussão antiga: por que um território com tamanho peso eleitoral consegue eleger tão poucos representantes diretamente identificados com a região?
Levantamento dos dados eleitorais disponíveis para 2026 mostra que Itabira e João Monlevade formam os dois grandes polos. Somados, os dois municípios possuem aproximadamente 150 mil eleitores, quase metade de todo o eleitorado regional. Logo depois aparecem Santa Bárbara e Barão de Cocais, ambos com mais de 24 mil eleitores.
O tamanho desse colégio eleitoral ganha importância ainda maior quando observado à luz das eleições anteriores. Em 2022, nada menos que 965 candidatos a deputado estadual receberam pelo menos um voto no Médio Piracicaba. Na disputa pela Câmara dos Deputados, foram 879 candidatos votados na região.
Ou seja, centenas de políticos procuram o voto do Médio Piracicaba. Poucos, entretanto, possuem sua origem ou principal base política na própria região.
Os 17 municípios e o peso de cada eleitorado
Considerando os dados eleitorais divulgados em 2026, Itabira lidera a região, com 88.591 eleitores. É, com ampla vantagem, o maior colégio eleitoral do Médio Piracicaba e representa sozinho mais de um quarto dos votos potenciais do território.
João Monlevade aparece em segundo lugar, com 61.354 eleitores aptos. Juntas, as duas cidades formam o principal eixo eleitoral regional.
Depois aparecem Santa Bárbara, com 24.294 eleitores, e Barão de Cocais, com 24.154. As duas cidades formam outro bloco importante e superam individualmente a marca de 24 mil votantes.
Na faixa seguinte estão Nova Era, com 15.042 eleitores; São Domingos do Prata, com 14.304; Alvinópolis, com 13.107; Rio Piracicaba, com 12.458; e São Gonçalo do Rio Abaixo, com 11.723.
Completam o mapa eleitoral Santa Maria de Itabira, com 8.783 eleitores; Bela Vista de Minas, com 8.237; Dionísio, com 6.913; Bom Jesus do Amparo, com 5.184; Catas Altas, com 5.164; São José do Goiabal, com 4.893; Dom Silvério, com 4.486; e Sem-Peixe, com 3.767 eleitores.
Os números revelam uma característica importante. O Médio Piracicaba não é eleitoralmente apenas Itabira e João Monlevade. Existe uma rede de municípios pequenos e médios que, somados, amplia consideravelmente o peso político regional.
É justamente aí que aparece a dimensão territorial da disputa.
Mais de 312 mil eleitores: o que isso significa?
Nas eleições proporcionais, não existe uma conta simples segundo a qual determinado número de eleitores de uma região corresponda automaticamente a determinado número de deputados. A eleição para deputado estadual e federal depende dos votos obtidos pelos candidatos, do desempenho dos partidos e federações e das regras do sistema proporcional.
Ainda assim, mais de 312 mil eleitores constituem uma base eleitoral expressiva.
A melhor demonstração está no próprio comportamento das urnas em 2022. Naquele pleito, 256.651 eleitores da região compareceram para votar. Foram contabilizados 221.224 votos válidos no levantamento regional.
Na eleição para deputado estadual, os quatro candidatos mais votados no Médio Piracicaba eram ligados à própria região. Juntos, eles receberam 83.486 votos, aproximadamente 38% dos votos válidos considerados na análise.
Mesmo assim, apenas um conseguiu transformar essa força regional em mandato.
Esse dado talvez seja mais revelador do que o tamanho bruto do eleitorado: o Médio Piracicaba tem votos, mas enfrenta dificuldades para transformar essa força eleitoral em representação política proporcional ao tamanho do território.
Apenas um deputado estadual da região saiu eleito em 2022
Entre os nomes diretamente vinculados ao Médio Piracicaba, Tito Torres (PSD), natural de João Monlevade, foi o único eleito deputado estadual em 2022. Atualmente no terceiro mandato na Assembleia Legislativa, ele volta à disputa em 2026 em busca de uma quarta legislatura.
A eleição passada, entretanto, mostrou uma peculiaridade importante do sistema proporcional.
Bernardo Mucida, cuja principal base política é Itabira, teve votação regional superior à de Tito Torres, mas não conseguiu se eleger. João Izael, também de Itabira, esteve entre os candidatos mais votados no Médio Piracicaba e igualmente ficou sem mandato.
Portanto, dominar eleitoralmente uma região não garante uma cadeira na Assembleia. O resultado também depende da votação alcançada pelo candidato no restante de Minas Gerais e do desempenho de sua legenda.
Na Câmara Federal, o vazio foi ainda maior
A situação fica mais evidente quando se observa a Câmara dos Deputados.
Em 2022, nenhum candidato diretamente oriundo do Médio Piracicaba conseguiu uma das 53 cadeiras destinadas a Minas Gerais.
Naquela eleição, 879 candidatos a deputado federal receberam pelo menos um voto na região. Entre os cinco mais votados, somente dois eram originários do Médio Piracicaba — ambos de Itabira — e nenhum se elegeu.
O candidato a deputado federal mais votado em toda a região foi Nikolas Ferreira, que recebeu 27.413 votos no Médio Piracicaba.
Em João Monlevade, por exemplo, Nikolas recebeu 6.995 votos e liderou a disputa para deputado federal. Depois apareceram Hercílio Coelho Diniz, com 3.342; Djalma Bastos, com 2.778; e Guilherme Nasser, com 2.505 votos.
Já em Itabira, Neidson Freitas liderou a votação para deputado federal, com 15.401 votos no município, enquanto Nikolas Ferreira recebeu 7.808.
Os resultados mostram comportamentos diferentes dentro de uma mesma região e ajudam a explicar por que construir uma candidatura verdadeiramente regional continua sendo uma tarefa complexa.
Médio Piracicaba apresenta pelo menos 15 nomes para deputado em 2026
O cenário de 2026 começa agora a ganhar contornos mais definidos. Até esta sexta-feira, 14 de agosto, O Fato identificou pedidos de registro de pelo menos 15 nomes ligados ao Médio Piracicaba para as disputas de deputado estadual e deputado federal.
É importante fazer uma distinção: pedido de registro não significa candidatura definitivamente deferida. O prazo para apresentação dos registros termina neste sábado, 15 de agosto, e a Justiça Eleitoral ainda precisa analisar a documentação e as condições de elegibilidade dos postulantes.
Na disputa pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais, aparecem pelo menos sete nomes ligados à região.
Por João Monlevade estão Tito Torres (PSD), número 55240, atual deputado estadual, e Fernando Linhares (Podemos), número 20220, presidente da Câmara Municipal.
Cássyo Pousas (Podemos), número 20900, representa Catas Altas, enquanto Rian Pereira (Novo), número 30000, entra na disputa a partir de Nova Era.
Itabira apresenta Danilo Alvarenga (PRD), número 25252, e Franklin Acácio (Democrata), número 35456. Também aparece Vitória da Solidariedade (Solidariedade), número 77200, natural de Catas Altas e com atuação ligada a Itabira.
Assim, a disputa estadual já reúne sete nomes identificados com municípios do Médio Piracicaba.
Oito nomes ligados à região buscam vaga na Câmara dos Deputados
A movimentação é ainda maior na disputa por uma cadeira de deputado federal. Até agora, oito pedidos de registro de nomes vinculados ao Médio Piracicaba foram identificados.
João Monlevade aparece diretamente ou pela trajetória política de vários deles.
Amantino Andrade (PT), número 1326, é natural de Antônio Dias, mas possui histórico político em João Monlevade, onde já disputou eleição municipal.
Djalma Bastos (PSD), número 5507, ex-presidente da Câmara Municipal de João Monlevade, também busca uma cadeira na Câmara dos Deputados.
Outro nome é Warley Mól (Novo), número 3033, natural de João Monlevade e criado em Bela Vista de Minas.
José Roberto Gariff Guimarães, o Beto Guimarães (Podemos), número 2040, nasceu em João Monlevade e construiu sua principal trajetória política em São José do Goiabal, município que governou por três mandatos.
Itabira concentra outros quatro nomes na disputa federal.
O ex-deputado estadual Bernardo Mucida, o Mucida (Avante), número 7090, tenta retornar à política parlamentar, agora buscando uma cadeira em Brasília.
Também disputam Rose Félix (PSD), número 5577; Cibele Machado (Republicanos), número 1050; e Marco Antônio Gomes, o Dr. Marco Antonio (PRD), número 2526, atual vice-prefeito de Itabira.
Com isso, os nomes já identificados revelam uma característica importante: João Monlevade e Itabira concentram grande parte das candidaturas regionais, mas também aparecem representantes de Catas Altas, Nova Era e São José do Goiabal.
Região também aparece na disputa pelo Senado
O Médio Piracicaba também está presente em uma chapa para o Senado.
Raquell Guimarães integra, como primeira suplente, a chapa encabeçada por Áurea Carolina (PSOL) na disputa por uma das vagas de Minas Gerais no Senado Federal. Raquell está filiada à Rede Sustentabilidade, partido que integra a federação com o PSOL.
Nesse caso, é importante observar que ela não concorre individualmente a uma cadeira de deputada, como chegou a aparecer nas primeiras articulações eleitorais acompanhadas pela imprensa regional. Seu pedido de registro está vinculado à chapa majoritária para o Senado.
A configuração definitiva das candidaturas, entretanto, ainda dependerá da conclusão do período de registros e da análise da Justiça Eleitoral.
Uma região procurada por centenas de candidatos
Embora pelo menos 15 nomes ligados ao Médio Piracicaba já apareçam na disputa proporcional de 2026, eles enfrentarão uma característica histórica do eleitorado regional: a forte entrada de candidatos de outras partes de Minas Gerais.
Em 2022, 965 candidatos a deputado estadual e 879 candidatos a deputado federal conseguiram pelo menos um voto no Médio Piracicaba.
Isso significa que o eleitorado regional não é disputado apenas pelos candidatos que vivem ou possuem trajetória política aqui.
Deputados com bases eleitorais no Vale do Aço, Região Metropolitana de Belo Horizonte, Triângulo Mineiro e outras partes de Minas procuram prefeitos, vereadores, lideranças comunitárias, empresariais, sindicais e religiosas do Médio Piracicaba para construir apoios.
A eleição de 2022 oferece um exemplo concreto. Entre os dez deputados federais mais votados somente em João Monlevade estavam nomes com bases políticas bastante diferentes, como Nikolas Ferreira, Hercílio Coelho Diniz, Rodrigo de Castro, Duda Salabert, André Janones e Padre João.
Portanto, dizer que uma região possui poucos representantes diretamente identificados com seu território não significa que esteja politicamente isolada. Ao contrário, muitos parlamentares eleitos fora dela recebem votos aqui e depois estabelecem relações políticas com os municípios por meio de emendas, projetos e articulações.
Uma das tarefas da cobertura Eleições 2026 | O Fato será justamente medir essa relação.
Quem recebeu votos também precisa entrar na conta
A discussão sobre representatividade regional não deve ficar limitada à cidade de nascimento ou ao domicílio eleitoral do parlamentar.
Há outra pergunta importante:
quantos deputados atualmente eleitos receberam votos no Médio Piracicaba e o que fizeram pela região durante o mandato?
Esse será um dos próximos levantamentos de O Fato.
A proposta é cruzar os resultados oficiais das eleições de 2022 com os 77 deputados estaduais e 53 deputados federais eleitos por Minas Gerais. Assim, será possível identificar quais parlamentares receberam votos em cada um dos 17 municípios, quanto receberam e, posteriormente, comparar esse apoio com emendas, recursos, projetos e atuação parlamentar relacionados à região.
Esse cruzamento permitirá distinguir duas formas diferentes de representação: o representante da região, que possui origem ou base política principal no Médio Piracicaba, e o representante votado na região, que possui base em outro território, mas recebeu apoio dos eleitores locais.
Essa diferença será importante durante toda a cobertura eleitoral.
O desafio de transformar eleitorado em poder político
O Médio Piracicaba reúne mineração, siderurgia, produção industrial, agricultura, serviços, patrimônio histórico e instituições de ensino superior. Além disso, BR-381 e BR-262 atravessam ou influenciam diretamente sua economia. Grandes empresas, entre elas Vale e ArcelorMittal, mantêm operações que ajudam a projetar nacionalmente o território.
Existe, portanto, peso econômico.
Também existe população e, sobretudo, um eleitorado superior a 312 mil pessoas.
O que os números das eleições anteriores colocam em discussão é a capacidade de converter esses fatores em representação política.
Em 2022, quatro candidatos regionais concentraram aproximadamente 38% dos votos válidos para deputado estadual no Médio Piracicaba, mas somente um chegou à Assembleia. Para deputado federal, nenhum nome da região conquistou mandato.
Agora, em 2026, pelo menos 15 nomes ligados ao território entram na disputa proporcional, sete para deputado estadual e oito para deputado federal. Além deles, a região aparece também em uma chapa para o Senado.
Ao mesmo tempo, centenas de candidatos de outras partes do estado voltarão a buscar votos nos municípios do Médio Piracicaba.
A eleição de outubro mostrará se esse padrão continuará ou se a região conseguirá ampliar sua representação.
Mais do que perguntar apenas “quem são os candidatos do Médio Piracicaba?”, existe uma questão maior:
quem representa a região — e como essa representação aparece quando chega a hora de destinar recursos, votar projetos e defender os interesses dos municípios?
É essa pergunta que Eleições 2026 | O Fato acompanhará até as urnas — e também depois delas.
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