Quarenta anos após o fim da Greve de 1986, documentos revelam como perseguição, reorganização sindical e mobilizações transformaram a luta dos metalúrgicos de João Monlevade em parte da história política e social brasileira
JOÃO MONLEVADE (MG) – Quando João Monlevade celebra, neste 8 de agosto de 2026, os 40 anos do encerramento da histórica Greve de 23 Dias da Belgo-Mineira, recordar aqueles acontecimentos significa olhar para uma história muito maior do que uma paralisação ocorrida em 1986.
A trajetória do Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de João Monlevade e Região, o Sindmon-Metal, atravessa alguns dos períodos mais importantes da história contemporânea brasileira. Entre eles estão as mobilizações operárias anteriores ao golpe de 1964, a repressão durante a ditadura, a reconstrução do movimento sindical, o surgimento do chamado Novo Sindicalismo e a redemocratização do país.
A própria criação do Dia da Luta Operária de João Monlevade, comemorado anualmente em 8 de agosto, reconhece oficialmente essa importância. A Lei Municipal nº 2.601/2023 determina que a data preserve, honre e homenageie os trabalhadores do município, especialmente os metalúrgicos da antiga Belgo-Mineira envolvidos na Greve de 23 Dias. Além disso, a legislação estabelece como objetivos democratizar o conhecimento sobre essa história e incentivar a valorização dos trabalhadores.
Quatro décadas depois da greve, entretanto, os documentos históricos mostram que aquele movimento não nasceu repentinamente em julho de 1986. Ao contrário, fazia parte de uma longa trajetória de conflitos, organização e resistência construída durante décadas pelos trabalhadores metalúrgicos de João Monlevade.
Por isso, a paralisação de 1986 precisa ser compreendida como resultado de um processo histórico mais amplo. Ao longo dos anos, a organização sindical se fortaleceu e, consequentemente, ampliou a capacidade de mobilização dos trabalhadores em defesa de seus direitos.
Antes da greve de 1986, veio a repressão de 1964
Para compreender o significado dessa trajetória sindical, é necessário retornar, inicialmente, aos primeiros anos da década de 1960. Naquele período, trabalhadores da Belgo-Mineira já protagonizavam mobilizações antes da implantação da ditadura.
Depois do golpe de 1964, entretanto, João Monlevade se tornou cenário de intensa repressão política e sindical. A partir daquele momento, as relações entre trabalhadores, sindicato, empresa e poder político entrariam em uma nova fase.
Nesse contexto, pesquisas acadêmicas e investigações relacionadas às comissões da verdade apontam indícios de participação de dirigentes da Belgo-Mineira na articulação empresarial que apoiou a ruptura institucional. Também documentam perseguições contra trabalhadores depois da instalação da ditadura.
Além disso, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais registrou que pesquisas apresentadas à instituição identificaram indícios dessa participação e relataram demissões em massa e colaboração na repressão a trabalhadores.
Da mesma forma, documentação utilizada pelo Ministério Público do Trabalho registra que, logo depois do golpe, cerca de 74 trabalhadores da unidade de João Monlevade que possuíam estabilidade teriam sido coagidos a deixar seus empregos. Dessa forma, os registros ajudam a dimensionar os efeitos da repressão sobre os trabalhadores da siderúrgica naquele período.
Posteriormente, pesquisa histórica divulgada pela Agência Pública identificou 103 trabalhadores da Belgo-Mineira em João Monlevade que teriam sofrido algum tipo de perseguição somente em 1964, entre eles os 74 empregados estáveis.
A dimensão da perseguição aos trabalhadores
O levantamento, coordenado pela historiadora Marina Camisasca, utilizou, entre outras fontes, o relatório da Comissão da Verdade em Minas Gerais. Assim, a pesquisa amplia a compreensão sobre a dimensão da repressão sofrida pelos trabalhadores naquele período.
Por outro lado, os números variam conforme o universo e o período considerados pelas diferentes pesquisas. Em 2014, por exemplo, durante audiência realizada pela Assembleia Legislativa, o ex-presidente do sindicato João Paulo Pires de Vasconcellos relatou que mais de 400 operários teriam sido desligados naquele contexto.
Portanto, esse relato indica que a dimensão das consequências da repressão pode ultrapassar os casos individualmente documentados para 1964. Ainda assim, é importante fazer uma distinção: os registros não devem ser somados automaticamente, pois tratam de recortes históricos diferentes.
O sindicato sofreu intervenção
A repressão também atingiu diretamente a organização sindical. Segundo documentação histórica reunida posteriormente, funcionários ligados à empresa chegaram a ocupar funções de intervenção no Sindicato dos Metalúrgicos depois do golpe.
João Paulo Pires de Vasconcellos relatou à Assembleia Legislativa que interventores foram nomeados para a entidade durante a ditadura.
Além disso, pesquisa histórica mais recente aponta que uma tropa policial enviada a João Monlevade em 1964 havia sido requisitada por Amaro Zacarias Corgosinho, então chefe da segurança da Belgo-Mineira e interventor do sindicato nomeado durante a ditadura.
O próprio acervo mantido pelo Sindmon-Metal registra documentos do Processo nº 4281, instaurado em 1964 contra dirigentes sindicais. A entidade relaciona o episódio à perseguição sofrida pelos trabalhadores naquele período.
Assim, a história do sindicato passou a carregar uma contradição que atravessaria as décadas seguintes. Uma instituição criada para representar trabalhadores precisaria recuperar sua autonomia depois de ter sido atingida diretamente pela estrutura repressiva instalada após o golpe.
Da repressão à reorganização dos trabalhadores
A organização operária, contudo, não desapareceu. Nas décadas seguintes, novas reivindicações começaram a reorganizar os trabalhadores dentro e fora da fábrica.
Gradativamente, questões relacionadas aos turnos, salários, condições de trabalho e representação sindical voltaram ao centro das mobilizações.
Nesse processo, João Paulo Pires de Vasconcellos relatou que, a partir de 1972, trabalhadores passaram a reivindicar mudanças nos turnos que dificultavam o descanso semanal. Segundo seu depoimento, foram necessárias mobilizações para que a reivindicação avançasse.
Assim, mesmo sob as limitações impostas pelo período, os trabalhadores retomavam formas coletivas de organização e pressão.
Além disso, há registros documentais de assembleias e mobilizações metalúrgicas no final dos anos 1970. Em 1978, por exemplo, o sindicato organizou uma assembleia de trabalhadores da Belgo-Mineira em João Monlevade. O encontro está registrado no acervo do Centro Sérgio Buarque de Holanda, da Fundação Perseu Abramo.
Dessa forma, a documentação preservada ajuda a demonstrar a retomada da mobilização coletiva dos trabalhadores naquele período.
Ao mesmo tempo, o sindicalismo brasileiro começava a recuperar sua capacidade de mobilização em diferentes regiões industriais do país. Nesse contexto, greves, assembleias e novas formas de organização dos trabalhadores ganharam força.
Posteriormente, esse processo de renovação da ação sindical seria associado ao chamado Novo Sindicalismo, que teria papel importante nas lutas trabalhistas e no processo de redemocratização do Brasil.
João Monlevade e o Novo Sindicalismo brasileiro
Embora o ABC paulista tenha se tornado o símbolo nacional desse processo, João Monlevade também ocupou espaço importante na reorganização sindical mineira.
A própria história institucional da CUT Minas registra a participação dos metalúrgicos de João Monlevade nas mobilizações que contribuíram para disseminar as discussões sobre o Novo Sindicalismo no estado.
Além disso, existe uma ligação ainda mais direta. O primeiro presidente da CUT Minas foi João Paulo Pires de Vasconcellos, metalúrgico e dirigente do Sindicato dos Metalúrgicos de João Monlevade. Segundo a própria Central, os metalúrgicos estiveram entre os grupos fundamentais para sua organização em Minas Gerais.
Esse dado coloca João Monlevade dentro de um processo nacional.
No final da ditadura, sindicatos, movimentos populares, organizações da sociedade civil e diferentes setores políticos ampliavam a pressão pela abertura democrática. As mobilizações dos trabalhadores não foram o único elemento da redemocratização brasileira, mas constituíram uma de suas forças sociais relevantes.
É nesse contexto que a experiência de João Monlevade ultrapassa os limites do município.
A luta por salários e melhores condições de trabalho também significava recuperar direitos de reunião, organização, manifestação e representação. Portanto, reivindicações trabalhistas e reconstrução democrática se encontravam em diferentes momentos daquela trajetória.
Justiça do Trabalho tornou-se palco dos conflitos
Os documentos preservados pelo Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região também permitem acompanhar esse processo.
Uma decisão de 26 de abril de 1984, por exemplo, registra dissídio coletivo envolvendo o Ministério Público do Trabalho, o Sindicato dos Trabalhadores Metalúrgicos de João Monlevade e a Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira. Naquele julgamento, o Tribunal declarou ilegal o movimento grevista então analisado.
O documento ajuda a compreender o ambiente que antecedeu 1986.
Naquele momento, os conflitos entre trabalhadores e empresa já não estavam restritos ao interior da usina. Pelo contrário, passavam pelas assembleias, pelo sindicato e também pela Justiça do Trabalho.
A Greve de 23 Dias surgiria dentro dessa sequência histórica.
1986: 23 dias que entraram para a história
Em 16 de julho de 1986, às 15 horas, trabalhadores da usina da Belgo-Mineira em João Monlevade iniciaram a paralisação que se transformaria no episódio mais conhecido da história sindical da cidade.
O próprio Sindmon-Metal registra o início do movimento nesse horário e relaciona a greve ao não atendimento das reivindicações apresentadas pelos trabalhadores.
A partir daquele momento, foram 23 dias de mobilização.
Finalmente, em 8 de agosto de 1986, a greve chegou ao fim.
Quarenta anos depois, aquela data tornou-se oficialmente um símbolo municipal da luta dos trabalhadores.
A memória voltou à Câmara em 2025
Décadas depois, a preservação dessa história ganhou novos espaços.
Em agosto de 2025, o Sindmon-Metal organizou uma exposição sobre o Dia da Luta Operária no hall da Câmara Municipal de João Monlevade. Durante 15 dias, documentos, fotografias e informações sobre a mobilização de 1986 foram apresentados ao público.
Na abertura da exposição, realizada em 6 de agosto daquele ano, participaram representantes do sindicato e trabalhadores que viveram o movimento.
Entre eles estava Francisco de Paula Santana, o “Barcelona”, trabalhador que participou ativamente da greve e permaneceu na usina durante o movimento. Seu testemunho ajudou a reconstruir, para uma nova geração, o ambiente vivido pelos metalúrgicos naquele período.
Depois da passagem pela Câmara, a exposição seguiu para o hall da Prefeitura.
Desse modo, a iniciativa mostrou que preservar essa memória não significa apenas recordar uma greve. Significa também preservar as experiências de homens e mulheres que participaram da construção dos direitos trabalhistas e das organizações coletivas da cidade.
De entidade perseguida a patrimônio da memória operária
Talvez seja justamente essa trajetória que explique a importância histórica do sindicato.
Em pouco mais de duas décadas, a organização dos metalúrgicos atravessou momentos profundamente distintos. Primeiro vieram as mobilizações anteriores ao golpe. Depois, intervenção sindical, perseguições e demissões.
Posteriormente, os trabalhadores reconstruíram sua organização. Em seguida, participaram do ambiente de renovação representado pelo Novo Sindicalismo. Finalmente, em 1986, protagonizaram a Greve de 23 Dias.
Não seria historicamente correto atribuir a uma única entidade a redemocratização brasileira. Ela resultou da atuação de inúmeros movimentos sociais, sindicatos, organizações políticas, instituições e milhões de brasileiros.
Por outro lado, também seria impossível contar adequadamente a história da redemocratização sem considerar o papel desempenhado pelo movimento sindical.
E, em Minas Gerais, João Monlevade ocupou um lugar próprio nesse processo.
A participação de seus metalúrgicos na construção do Novo Sindicalismo mineiro, a eleição de um dirigente local como primeiro presidente da CUT estadual e a sucessão de mobilizações ocorridas na cidade demonstram que a história construída dentro da usina tinha conexões muito maiores com as transformações que aconteciam no Brasil.
40 anos depois, a pergunta passa às novas gerações
Em 2026, muitos dos trabalhadores que protagonizaram aquela história estão aposentados. Outros já morreram.
Enquanto isso, a própria estrutura industrial mudou. A antiga Belgo-Mineira passou a integrar a ArcelorMittal. As relações de trabalho se transformaram, novas tecnologias chegaram à siderurgia e o perfil da classe trabalhadora também mudou.
Os documentos, entretanto, permanecem.
Fotografias, boletins, processos judiciais, jornais, atas e depoimentos permitem reconstruir uma história que, durante muito tempo, permaneceu principalmente na memória de quem a viveu.
Além disso, a Lei nº 2.601/2023 determina que o município incentive ações com a comunidade escolar para que estudantes conheçam a importância histórica da luta operária de João Monlevade.
Essa talvez seja uma das questões centrais deste aniversário.
O que as novas gerações sabem sobre os trabalhadores que ajudaram a construir João Monlevade?
Quarenta anos depois do fim da Greve de 23 Dias, preservar essa história significa compreender que a cidade não foi construída apenas por sua siderúrgica.
Ao contrário, foi construída também por milhares de trabalhadores que, em diferentes momentos, organizaram-se para reivindicar direitos, enfrentaram repressão e reconstruíram suas entidades.
Assim, a luta operária de João Monlevade tornou-se uma pequena — mas importante — parte da história da democracia brasileira.
📊 Em números
1964 — ano do golpe e do início de um período de intensa repressão aos trabalhadores de João Monlevade.
103 trabalhadores — número de empregados da Belgo-Mineira identificados em pesquisa como vítimas de algum tipo de perseguição em João Monlevade somente em 1964.
74 trabalhadores estáveis — grupo registrado em documentos como submetido a demissões coercitivas após o golpe.
1984 — ano da criação da CUT Minas, cujo primeiro presidente foi o metalúrgico monlevadense João Paulo Pires de Vasconcellos.
16 de julho de 1986 — início da Greve de 23 Dias.
8 de agosto de 1986 — encerramento do movimento.
8 de agosto — Dia da Luta Operária de João Monlevade, instituído pela Lei nº 2.601/2023.
40 anos — período completado neste sábado, 8 de agosto de 2026, desde o encerramento da greve.
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1986–2026 — Memória, trabalho e luta operária em João Monlevade.




