Entre a memória e o arquivo: Barbacena, o “Holocausto Brasileiro” e a contribuição de Exilados na Pátria

Ilustração  (André Toma/Mundo Estranho) Fonte: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-foi-a-tragedia-do-hospital-colonia-de-barbacena/
Ilustração  (André Toma/Mundo Estranho) Fonte: https://super.abril.com.br/mundo-estranho/o-que-foi-a-tragedia-do-hospital-colonia-de-barbacena/

A recente matéria publicada pela Folha de S.Paulo sobre o fechamento definitivo do antigo Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena recolocou no centro do debate público uma das páginas mais sensíveis da história da saúde mental brasileira. Conhecido nacionalmente como símbolo do chamado “Holocausto Brasileiro”, o hospital voltou a mobilizar discursos sobre memória, violência institucional, reparação e direitos humanos.

No entanto, por trás da força simbólica dessa narrativa, permanece uma questão histórica fundamental: qual é o papel da documentação e da pesquisa historiográfica diante das memórias já consolidadas sobre o Hospital Colônia de Barbacena?

É justamente nesse ponto que a pesquisa Exilados na Pátria: o tratamento de “alienados” no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena, 1903-1979, desenvolvida por Elizeu Antônio de Assis no Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal de Ouro Preto (PPGHIS/UFOP), sob orientação do professor Ângelo Alves Carrara, ganha importância nacional.

A investigação realizou ampla análise documental dos livros de registros do antigo CHPB, produzindo um trabalho historiográfico que trouxe novos elementos para a compreensão da trajetória institucional do hospital. Ao confrontar memória e arquivo, a pesquisa passou a problematizar parte significativa das narrativas cristalizadas sobre Barbacena, especialmente no que se refere à repetição pública da cifra de “60 mil mortos”, frequentemente reproduzida sem sustentação documental rigorosa.

O estudo identificou, a partir dos próprios registros institucionais, quantitativos significativamente inferiores aos números consagrados no imaginário social, apontando menos de 20 mil óbitos oficialmente registrados entre 1903 e 1979. Mais do que uma disputa numérica, a pesquisa recoloca o debate em outro patamar: o da responsabilidade histórica diante dos documentos.

Isso não significa negar a violência institucional, o sofrimento ou as práticas de exclusão vividas por milhares de internos. Ao contrário. Significa compreender que memória e história operam em registros diferentes. Enquanto a memória mobiliza símbolos, afetos e narrativas coletivas, a história exige crítica documental, contextualização e análise metodológica rigorosa.

Quando apresentada no próprio Museu da Loucura, em Barbacena, a pesquisa recebeu reconhecimento exatamente por oferecer um contraponto historiográfico importante às narrativas memorialísticas já consolidadas sobre o hospital. O trabalho passou a integrar um debate mais amplo sobre como a sociedade brasileira elabora suas memórias traumáticas.

Nesse contexto, a contribuição da Universidade Federal de Ouro Preto merece destaque. Foi no interior da universidade pública que a pesquisa pôde ser desenvolvida, demonstrando a importância das instituições federais na produção de conhecimento crítico sobre temas historicamente sensíveis. O PPGHIS/UFOP não apenas acolheu a investigação, mas criou as condições acadêmicas e intelectuais para que ela alcançasse repercussão nacional.

O debate ganha ainda mais relevância em um momento no qual universidades como a Universidade Federal de Minas Gerais e a Universidade Federal de Juiz de Fora realizaram pedidos públicos de desculpas relacionados ao uso de cadáveres provenientes do Hospital Colônia em atividades de ensino e formação médica ao longo do século XX. Esses movimentos de reparação simbólica revelam que o passado do manicômio permanece produzindo efeitos no presente.

Mas talvez a questão mais inquietante seja outra.

Enquanto o movimento antimanicomial permanece frequentemente ancorado na memória do horror manicomial do século XX, novas formas de institucionalização avançam silenciosamente sob outras linguagens. O crescimento das chamadas comunidades terapêuticas revela que antigas racionalidades de segregação podem retornar revestidas por discursos de acolhimento, cuidado, proteção e recuperação moral.

Nesse sentido, o desafio contemporâneo talvez não seja apenas lembrar o manicômio do passado, mas reconhecer como determinadas práticas de controle e confinamento continuam se reorganizando sob novas formas institucionais.

O fechamento definitivo do hospital, simbolizado agora pelo cadeado colocado no antigo Pavilhão Antônio Carlos, possui enorme força simbólica. Contudo, o encerramento físico da instituição não encerra sua história. A história de Barbacena permanece aberta.

Os prédios podem ser fechados, os corredores podem silenciar e os portões podem receber cadeados, mas os arquivos continuam abertos. Permanecem à espera de novas leituras, novas perguntas e novas escutas históricas. Porque os documentos ainda interrogam o presente.

Talvez seja justamente essa a condição mais inquietante dos arquivos: eles sobrevivem ao fechamento das instituições. Continuam assombrando a história, reaparecendo a cada nova geração que retorna aos registros em busca de compreender aquilo que a memória, sozinha, não consegue estabilizar definitivamente.

O Hospital Colônia pode ter encerrado suas atividades institucionais, mas seus arquivos permanecem vivos como lugar de disputa entre memória, história, esquecimento e verdade.

E talvez o maior mérito de Exilados na Pátria tenha sido justamente este: recolocar o arquivo no centro do debate, lembrando que algumas verdades históricas não se resolvem apenas pela força da memória, mas exigem também o enfrentamento crítico dos documentos, dos silêncios e das disputas em torno da produção da própria verdade histórica.